UA-89169382-1 Crônicas de Juvenal: São Paulo.
Mostrando postagens com marcador São Paulo.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador São Paulo.. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A Cartamonte

Tarô, búzios, cartas...

Matéria da TV Folha sobre as videntes do Viaduto do Chá, na cidade de São Paulo, impressiona pela angulação da questão: são ossos do ofício que poucos - ou poucas, a bem da verdade - ousam abordar publicamente: a perseguição policial de trinta anos atrás, atendimentos por caridade, tentativas de suicídio evitadas com conselho e muitas outras histórias tocantes (http://www1.folha.uol.com.br/multimidia/videocasts/2013/11/1376707-ja-evitei-varios-suicidios-conta-vidente-do-viaduto-do-cha-em-sp.shtml).

De assaltante de banco a mães desesperadas, são muitos os que passam por lá em busca de respostas. Claro, não pude deixar de pensar no trágico conto "A Cartomante", de Machado de Assis. No conto, Camilo, pivô de um triângulo amoroso, recorre à cartomante para saber do seu destino:

"Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável mais cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.
— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante" (http://www.releituras.com/machadodeassis_cartomante.asp).


Entre as ilusões acenadas e o vislumbre da tragédia que se seguiria houve um fosso mortal: Camilo morreria horas depois, assassinado pelo marido de sua amante em um acerto de contas. Para alguns, a vida já é uma tragédia auto-imposta. Para estes, a cartomante pode mudar o rumo das coisas. Ou, pelo menos, as disposições internas e a fé no futuro, o que, em si, já não é tarefa fácil.

Saber algo de um futuro incerto, tão incerto quanto a hora de nossa morte: talvez o que muitos realmente busquem é um motivo a mais para permanecer neste mundo. E se, nas cartas, ele encontrar alguma razão para ficar, então o investimento já valeu a pena. 
 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Trem das Onze

Não deixa de ser irônica a maneira como a questão do transporte entrou na pauta dos dirigentes da capital e do estado mais populoso do Brasil. Vídeo publicado em primeira mão pelo jornal Folha de S. Paulo online, coloca o prefeito Fernando Haddad (PT-SP) e o governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) lado a lado, cantando a famosa canção "Trem das Onze" (http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2013/11/1375796-video-mostra-haddad-e-alckmin-cantando-em-paris-no-inicio-dos-protestos-de-junho-veja.shtml).

O dueto aconteceu durante um show da Daniela Mercury, quando prefeito e governador de São Paulo "estavam em Paris para lançar a candidatura paulistana como sede da Expo 2020".  Bem, se fosse apenas uma questão de desafiar convenções partidárias e gostos musicais dominantes, ainda ia. O problema é que o vídeo revela que a inusitada parceria entre os dois políticos, pertencentes a partidos supostamente rivais, acontece no mesmo momento em que a cidade de São Paulo era sacudida pelos primeiros protestos do Movimento Passe Livre, no início do mês de junho deste ano.

Sem dúvida alguma, a canja constituiu uma resposta politicamente desafinada ao problema do transporte público. É que hoje em dia tem muita gente que mora bem depois de Jaçanã e que acaba perdendo uma parte considerável de horas do seu dia confinada em um transporte público insuficiente e caro.

Fato incontestável: todas as vezes que nossos dirigentes rebolam para nos colocar no mapa dos grandes eventos mundiais, dançamos todos. Com e sem música.