UA-89169382-1 Crônicas de Juvenal: agosto 2014

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Bate-volta

Dado como morto, mas devolvido do Além.

Assim parecer ter sido com o Sr. Walter Lúcio de Oliveira Gonçalves, cuja morte havia sido constatada ontem à noite, no Hospital Menandro de Farias, município de Lauro de Freitas, região metropolitana de Salvador (http://www.hojeemdia.com.br/noticias/apos-ser-dado-como-morto-homem-e-achado-vivo-em-necroterio-da-bahia-1.263728). Duas horas depois, contudo, o paciente acabou sendo declarado 'ressuscitado' por vias ainda pouco exploradas pela literatura médica.

De acordo com notícia publicada no jornal Hoje em Dia online, "Gonçalves, portador de câncer, chegou à unidade com dificuldades respiratórias e, poucas horas depois, sofreu três paradas cardíacas. De acordo com a unidade, o paciente não respondeu às tentativas de reanimação, foi declarado morto às 23 horas e levado, dentro de um saco plástico, para o necrotério." O engano foi descoberto pelo irmão da vítima, no momento em que este fazia o reconhecimento do corpo no necrotério.

Enquanto a sindicância aberta pela  não emite laudo conclusivo, vítima e seus familiares recusam a tese de negligência humana para apostar na tese de um milagre: "A família do paciente, que acompanhou o atendimento, defende a equipe médica do hospital e atribui a 'ressuscitação' de Gonçalves a um milagre de Irmã Dulce."

Não sei se a irmã Dulce estava preparada para tanta unanimidade, mas, de qualquer forma, a tese de "ressuscitação" parece ter agradado a gregos e troianos. Menos mal! Se eu fosse a Secretaria de Saúde da Bahia, tentava urgente um convênio com a nobre Irmã.


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Sem dilemas

Ia tentar dormir sem dar ao menos dois pitarcos na polêmica levantada recentemente pelo biólogo Richard Dawkins, mas não consegui. A bobagem propalada pelo distinto professor da Universidade de Oxford foi tão monstruosa que, mesmo com muito sono, não conseguiria dormir.

Pois vamos ao pitarco nº 1: se o senhor Dawkins teve algum "mérito" no dia de hoje, este foi acordar o fantasma da Eugenia e mostrar ao mundo que ele continua vivinho da Silva. É que ao ser informado sobre um suposto dilema ético que seria vivido  uma usuária do Twitter, caso ela constatasse que seu filho nasceria com síndrome de Down, o senhor professor foi categórico: "Aborte e tente de novo", teria dito o biólogo. "É imoral trazer 'isso' ao mundo se você tiver escolha." (http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2014/08/1504047-richard-dawkins-diz-ser-imoral-dar-a-luz-a-bebes-com-sindrome-de-down.shtml).

Pois bem: "aborte e tente de novo" é a resposta que ele considerou como sendo a opção moralmente correta e pretensamente "lógica", porque destituída de emoções. A meu ver, o máximo que ele conseguiu provar foi um diagnóstico provável de alexitimia, sem nenhum rasgo lógico. E não vou nem entrar aqui em uma discussão consistente sobre o quão limitada e politicamente conservadora e equivocada é a visão de "normalidade" na qual ele se apoia.

Por esta razão, passo diretamente ao pitarco nº 2. O problema de uma polêmica dessa natureza é que uma parcela das vozes que se insurgem contra o argumento de Dawkins tendem a resvalar para o extremo oposto: abortar um bebê é imoral, quando não criminoso, e não cabe à mãe da criança decidir o futuro de sua gestação.

No meu entendimento, este extremo é tão perigoso e politicamente conservador quanto o argumento da Eugenia. Aborto obrigatório e aborto proibido, no final das contas, acabam desaguando no mesmo rio: a mulher não pode decidir sobre seu corpo e, consequentemente, sobre a vida que ela porta em si.

Enfim, agora que dei os meus dois pitarcos, já posso ir dormir sossegada. Isto, claro, se o fantasma da Eugenia ressuscitado por Richard Dawkins não vier puxar o dedão do meu pé hoje à noite.



quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Desafiador

A vida é cheia de ironias, a gente bem sabe. Mas a morte também pode ser.

A notícia publicada hoje no jornal Hoje em Dia online é sintomática de que a ironia não mora só nesse blog, nem única e exclusivamente na obra de Machado de Assis. De acordo com a notícia, "Corey Griffin, um dos criadores do desafio do balde de gelo, 'ALS Ice Bucket Challenge' em inglês, morreu aos 27 anos em um acidente de mergulho nos Estados Unidos" (http://www.hojeemdia.com.br/noticias/mundo/morre-afogado-criador-do-desafio-do-balde-de-gelo-1.262696).

Para os desavisados - como eu - que nunca tinham ouvido falar do tal desafio, aqui vai uma explicação: após descobrir que um amigo havia sido diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, Griffin decidiu lançar um desafio para arrecadar fundos para o tratamento do amigo: "A campanha tem como objetivo desafiar alguém a jogar um balde de água gelada contra a cabeça ou fazer uma doação de US$ 100 a ALS Association. Caso queira, o desafiado também pode fazer os dois. Quem participa do desafio pode desafiar outros a fazer o mesmo no prazo de 24 horas".

Graças ao prazo de execução e ao suporte técnico onde foi disseminado - o Facebook - o desafio do balde de gelo rapidamente ganhou ares de viral e conquistou 28 milhões de usuários no Facebook. Mas, agora, usuários, reles mortais como eu e como você, devem ter lido esta postagem e se perguntado: qual a graça em morrer afogado depois de se ter conseguido colocar 28 milhões de cabeças dentro de um balde?

Francamente, eu não sei. Mas, por via das dúvidas, eu teria comprado uma pimenteira e deixado ao lado do computador.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Astúcia

Sim, cá estou eu espanando a poeira - mais uma vez - e pensando na sorte do Juvenal, patrono deste blog. Hora dessas, ele deve estar no paraíso dos anéis perdidos, perguntando a seus botões (não, ele não tinha botões): o que ele fez para ser patrono de um blog que perdeu a regularidade?

Pois bem: desta vez, a estiagem literária foi brava e eu bem sei. Não estou feliz nem orgulhosa da minha prolongada ausência deste espaço. Mas ainda não há lei que obrigue um bom blogueiro a estar em dia consigo mesmo e com seu blog. E, mesmo se houvesse, seriam tantas as transgressões que a regulamentação seria inócua.

Tão inócua, talvez, quando a legislação eleitoral na Era Digital. O exemplo que narro a seguir é flagrante com relação ao desuso e às brechas abertas pelo sistema digital de TV no Brasil. E não sou eu, mas o jornal Folha de S. Paulo online que alertou hoje: a emissora SBT "resolveu dar uma alternativa aos seus telespectadores durante o horário político na televisão: disponibilizou em seu site episódios do seriado 'Chapolin' ".

A reprise do seriado "Chapolin" não é em si o pior dos pecados. O problema está no descumprimento de legislação eleitoral, que regula a veiculação de imagens em período de eleições: "Segundo a assessoria do SBT, o projeto é para o período político e usa uma brecha na publicação digital, que não exige a transmissão obrigatória" (http://f5.folha.uol.com.br/televisao/2014/08/1502669-sbt-presenteia-internautas-com-chapolin-durante-horario-politico.shtml).

Para quem não contava com a astúcia do SBT, só lamento. A estação já está anos-luz à frente das leis eleitorais deste país. Tão distante que se o Chapolin resolver, de uma hora para a outra, concorrer ao posto de presidente da República, muitos eleitores sabidamente hão de jurar tê-lo visto em algum Horário Gratuito de Propaganda eleitoral. Só que não!

sábado, 2 de agosto de 2014

A ida dos que não voltaram

Depois de tanto tempo sem escrever aqui neste blog, sinto meus dedos enrijecidos e as ideias, frouxas. Escrever é realmente uma danada de uma pulsão que, quando não satisfeita, acaba atrofiando tudo: da inteligência que habita sob o couro cabeludo (ou não) até a pontinha mais sensível dos dedos.

Este post poderia se intitular "A volta dos que não foram", se eu tivesse voltando de algum lugar. Mas não é o caso. Ando tão desprendida dos meus velhos hábitos saudáveis - escrever é um deles, nadar é outro - que nem me reconheço mais. Portanto, não há volta, mas quase um desencontro. Por esta razão, nada de voltas nas voltas que a vida dá.

Por outro lado, é vero que estou de ida para algum lugar. Parto amanhã para fazer um treinamento de uma semana numa ilha. E isso não é piada. Faço até algumas de vez em quando, mas este não é o caso. E estando eu de ida marcada, agora é que não dá mesmo para celebrar a volta de nada.

Ficamos, portanto, com a ida dos que não voltaram, de tão fora de si que têm andado. Não vou nem procurar por mim mesma naquela ilha, porque, horas dessas, devo mesmo é estar vagando em alguma outra dimensão sideral. Quando eu voltar, vou contratar uma banda para me receber.

Findo o prolongado ínterim, resta-me avisar que  postagem é tão simplesmente para matar a saudade da escrita. Sim, ela me faz falta. Sem ela, não há volta nas tantas voltas que a vida dá.

Abraços para quem fica. Vou dormir porque já é tarde e amanhã eu começo meu caminho de ida. Até a volta.