UA-89169382-1 Crônicas de Juvenal: viagem
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sexta-feira, 12 de junho de 2015

Colombianas - Parte 2: ilhas de San Andrés e La Providencia

Uma vez cumpridas (e com louvor) as obrigações acadêmicas previstas para Medellín, chegou a hora de encontrar aconchego debaixo da asa da "mamãe avião" e subir rumo ao próximo destino: ilhas de San Andrés e La Providencia, região do Caribe colombiano.

As duas ilhas têm um precedente cultural que as torna bastante distintas da região continental da Colômbia: elas foram colonizadas por britânicos, mais precisamente por corsários britânicos como o lendário Henry Morgan (um voraz saqueador de colônias espanholas que viveu no Caribe no início do séc XVII). Esta particularidade fez com que os escravos jamaicanos, trazidos para trabalhar nas lavouras de tabaco e algodão, dessem origem à chamada cultura Raizal, com língua, comida, feições e temperos próprios. Hoje, contudo, esse grupo étnico afro-caribenho fala espanhol muito bem, obrigada, porque, afinal de contas, as ilhas são destinações turísticas baladas da Colômbia.

Mas não exatamente da mesma forma. San Andrés e La Providencia tem vybes totalmente distintas. A única coisa parecida é o mar do Caribe, com seu azul generoso e transparência infinita, capaz de fazer você subestimar em muitos e muitos metros a profundidade do mar por onde nada alegremente com o seu snorkel comprável a R$ 20 realitos (modelito mais básico, sem firulas). De resto, nada a ver.

Para comparar as vybes das duas ilhas: esta é uma praia de San Andrés.

E esta é uma praia de La Providencia.

San Andrés é uma pérola caribenha maculada por preços extorsivos e serviço ruim, precário, quando muito desonesto. Infelizmente, como planejava ficar pouco na ilha, optei por me hospedar no ó do borogodó, o que me rendeu uma sequência de três noites maldormidas por conta do barulho do hóspedes do hostel (péeeeeesimo!). Fora o hostel, esse cantinho norte da ilha de San Andrés é mesmo barulhento, uma espécie de Porto Seguro versão família, compactada em algumas poucas quadras, com uma zona franca bem fraca (não tinha equipamentos fotográficos Canon, ora vejam só) e praias tão lindas quanto superlotadas. Felizmente, tem gente boa em qualquer canto do mundo, de modo que Andrea, Juan Pablo e Érica foram excelentes companhias por esses dias.

Resumidamente, os quatro dias não consecutivos passados em San Andrés me valeram uma GOPRO Hero 4 com preço bastante vantajoso, um mergulho com cilindros (paguei por 4 horas, mas só durou 3), café decente (mérito da Colômbia continental), um passeio a um maravilhoso aquário a céu aberto, onde extorsionários alugavam snorkel,  guarda-volumes e sapatilhas aquáticas para que as pessoas sapateassem com mais vigor e disposição sobre os pobres corais indefesos. Consciência ecológica do impacto ambiental daquela multidão de sapateadores de corais? Deve ter sido levada para bem longe pelos primeiros corsários ingleses.

Mergulho de boas-vindas logo na primeira manhã em San Andrés. Perfeito se não tivesse durado uma hora a menos.
Esta imagem do Aquário é uma boa síntese de San Andrés: praias superpovoadas, cercadas de um mar de uma cor sem explicação.


Bem, se eu quisesse praia cheia, teria ido para Copacabana e não para o Caribe colombiano. Razão pela qual eu dei um jeito de comprar uma passagem e viajar de "avioneta" (termo que eles usam para designar um aviãozinho de 20 lugares) para La Providencia. O conjunto da obra passagem-hospedagem-traslado-alimentação não ficou uma bagatela, mas o que eu encontrei em La Providencia não tem preço: sossego autêntico e irrestrito.

Vista aérea do mar da ilha La Providencia



Sossego despovoado: essa La Providencia é mesmo o paraíso!


O sossego de La Providencia não conhece limites. Quer desfrutar de um passeio de bicicleta pelos 18km de circunferência da ilha? Esqueça o cadeado, lá não precisa. "Aqui todo mundo se conhece", me explicaram, em uníssono, o motorista do táxi, a funcionário do hotel, o funcionário que me alugou a bicicleta. Quer admirar uma praia deserta, sem o assédio de ambulantes? Pois esta ilha é o lugar ideal. Ninguém te aborda, ninguém te perturba, mas todos, sem exceção, foram corteses, polidos e respeitosos quando solicitados para dar alguma informação.

 Para fechar o relato com chave de ouro, vou contar rapidamente um evento interessante que me aconteceu em La Providencia. Estava eu com a bicicleta alugada até às 21h quando, por volta de 18h30, decido pegar a estrada e fazer um percurso de uns 15 minutos de bicicleta até um café-restaurante bastante recomendado pelo guia Lonely Planet. Como os postes era numerosos no caminho, não me preocupei em levar lanterna. Ainda estava claro quando saí, mas a noite havia caído totalmente quando decidi voltar ao hotel para devolver a bicicleta. Para a minha surpresa, vários daqueles postes estavam apagados e a estrada estava um breu total.

Nessa hora, eu tive medo. Medo de colisão, pois os nativos iam e vinham de moto, e as luzes acesas dos faróis diminuiam minha visibilidade. Medo de atropelar um caranguejo, pois eles estavam em período de desova no mar, descendo da montanha e atravessando a pista em filas indianas. Medo de ser interceptada na parte mais escura do caminho, pois, afinal, eu estava na Colômbia, e a Colômbia faz parte da América Latina. De repente, em uma parte bastante escura da estrada, passo por um grupo estacionado na beira da estrada, ao lado de uma caminhonete. Não deu para ver muita coisa no escuro, mas parecia que eles estavam trocando um pneu da caminhonete. Logo após minha passagem por eles, uma moto é ligada e começa a me seguir, permanecendo logo atrás de mim.

A moto não fez nada mais do que permanecer na mesma posição, iluminando meu caminho, até que eu chegasse na parte totalmente iluminada da estrada. Em seguida, ela passou por mim e eu agradeci. Era uma moça com um menino na garupa. Um sinal claro de que temos que confiar com mais frequência na guiança da Divina Providência.

Matando saudades de umas boas pedaladas na Ilha da Providência.




Ilha da Providencia vista do seu pico.

sábado, 23 de maio de 2015

O desabrochar das malas

Acabaram de desabrochar as primeiras violetas do ano. Por coincidência ou não, amanhã eu volto a colocar o pé na estrada para viajar da forma que tanto gosto: mochila, roteiro semi-estruturado, espaço para o imponderável.

Talvez não haja coincidências, mas um simples desabrochar conjunto de coisas boas. Na mala, já foram acomodadas a câmera nova, um guia de viagens para o país de destino, meu computador, algumas responsabilidades, material de pintura e desenho, além de dois pacotes de muda de roupa (no primeiro, roupas de trabalho para os primeiros dias de congresso; no segundo, roupas de veraneio para a segunda etapa da viagem).

Fazendo as malas, me ocorreu lembrar de um sonho curioso que tive em janeiro deste ano, quando viajava por outros mares que nunca havia navegado antes. Nesse sonho, minhas violetas tinham sido podadas e, no lugar dos caules finos, nasceram caules grossos como os de cactus. E dos novos caules grossos, brotou uma floresta de violetas desse mesmo tom.

Quando cheguei dessa longa viagem, encontrei minhas violetas em bom estado, mas sem flores. Não foi por falta de zelo, certamente, pois elas tinham sido bem cuidadas na minha ausência. Mas há algo misteriosamente instintivo nas violetas, que parecem pressentir as mudanças que estavam por vir. As violetas se recolheram, a mochila foi para o armário.

Agora, em mútuo entendimento, violetas e malas acenam, juntas, de mãos dadas, enviando sorrisos para mim. E elas parecem concordar com o auspicioso decreto: é hora de voltar para a estrada; é hora de voltar a ser quem eu sou. 


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Peruanas - Parte 2

Posso dizer que conheci dois lados do Peru: verso e avesso, tudo bem ao gosto da permanente dualidade inca. O que equivale a dizer qe conheci as mazelas das rotas turísticas oficiais e extra oficiais que ligam o Brasil até aquele país.

Isto posto, acho bestamente desnecessário bater na tecla de que o Machu Picchu foi o ápice da minha curta viagem ao Peru. Aquilo é o mais verdadeiro lugar-comum turístico do planeta, mas nem por maravilhosamente surpreendente: saí de lá com o queixo no chão. Como uma amiga bem definiu: "este lugar não tem explicação". Não, não tem mesmo.


O que não quer dizer que essa filial do paraíso na terra não tenha lá o seu preço tabelado. No início, lamentei um bocado pelos U$250-300 deixados na agência turística local para ter acesso ao kit van-trem-ônibus que me levou até aquele solo sagrado. No fim das contas, saí de lá querendo dar o meu reino e o meu cavalo por um retorno ao sítio arqueológico na época dos solstícios.


Dica boa para dias sem chuva: descer no km 104 e subir o resto a pé.

Muros de pedras em 4 estilos: pedra bruta, arrimo, construção popular e templo (este último é o da foto) .

Sítio arqueológico em névoas. Só mais tarde pude ver o entorno. E que entorno.

Muros inclinados: especialidade inca.

Casas e janelas.

Árvores: uma das poucas que restaram.
O conjunto da obra

Mas teve o outro lado também: a extra-oficialidade do turismo em terras latino-americanas. Explico: a companhia de ônibus que me levou de Rio Branco até Cusco oferece apenas duas saídas por semana e, consequentemente, apenas dois dias de retorno também. Fato é que não tive lá muita escolha: ou voltava de ônibus até o meio do caminho e baldeava o resto, ou perdia meu voo para a Roça Grande (também conhecida como Belo Horizonte). Baldeemos, pois!

A viagem de ônibus de Cusco até Puerto Maldonado, que começou às 21h, já foi um tanto conturbada. O cidadão que se sentou ao meu lado tinha mais de 1m90cm e pernas mais longas que as do Papaléguas, o que fez da travessia ao sabor das curvas tortuosas da estrada um verdadeiro suplício: a sensação foi de emparedamento. Como se não bastasse isso e o aquecimento do ar no talo, o ônibus ainda resolve quebrar no meio do caminho. Resultado: duas horas parados na estrada, rodeados por montanhas em neve. O que, obviamente, resultou em duas horas de atraso na chegada na rodoviária de Puerto Maldonado.

Chegada na rodoviária de Puerto Madonado foi às 8h30. Aqui começa a epopeia do transporte coletivo alternativo. Como chegar até Rio Branco? A receita já tinha me sido dada: pegue um táxi (nada mais que um triciclo com carroceria) até o chamado Guión Ica, de onde saem as vãs para Ñapari, fronteira com o Brasil.

Logo na porta da rodoviária de Puerto Maldonado, um leilão de preços para o táxi. Peguei o que gritou o preço mais baixo, com plena convicção de que ainda estava pagando muito acima do justo. Paciência.

Preço de táxi é no leilão! Quem dá mais, quem dá mais?

As carrocerias são uma atração à parte. Tem de todos os modelos e cores do arco-íris.
 
No Guión Ica, 50 minutos de espera até que a vã completasse todos os assentos. E um sol de rachar! Banheiro? Uma garagem que poderia ser oficina mecânica (ou não) me ofereceu um "urinário", que correspondia a um prosaico ralo no chão. Agradeci. Era aquilo ou nada.

Na van, a parte bacana da travessia: ventão no rosto, paisagem na janela. Abri minha mochila e peguei o saco de bananas desidratadas tipo chips que havia comprado para comer em Machu Picchu e dividi com minhas vizinhas de cadeira, uma jovem grávida e uma senhora idosa. A viagem ficou, digamos, mais crocante.

Van para Ñapari

Isso não quer dizer que eu tenha chegado facilmente em Ñapari. Nada disso! A van ia só até Iberia, no meio do caminho. Lá chegando, consegui pegar outro carro que estava de saída para Ñapari. Não soubesse o país onde estava, diria que minhas novas vizinhas de cadeira eram muçulmanas. Mas vai que eram mesmo...
Mulheres de véu, mas sem grinalda.
 Em Ñapari, a alfândega para sair do Peru e o posto da Polícia Federal para entrar no Brasil. A do Peru, consegui passar por volta das 13h, antes que a funcionária saísse para almoçar. Adiantou alguma coisa? Não. Só tinha euzinha para pegar o táxi que me levaria a Brasilândia, próximo ponto de baldeação. Solução: esperar no sol rachando por mais companheiros de viagem.

Uns 40 minutos depois, chegam aquelas que seriam as minhas companheiras de jornada dali para frente: três jovens profissionais do sexo que voltavam da labuta em terras estrangeiras. Contrariamente a mim, que voltava muitos dólares e reais mais pobre, as jovens profissionais voltavam com a carteira cheia. As indumentária também era contrastante: de um lado, euzinha de camiseta Hering de manga, calça e tênis de trekking; de outro, micro-shortinhos, mini-blusa e sandalinhas. Ponto para elas, pois o calor era de uns 50ºC à sombra.

Alfândega do Peru

 Posto da Polícia Federal

O problema é que as meninas não estavam com pressa alguma, contrariamente a esta que vos escreve. Além de eu e o motorista do táxi termos que esperar pela reabertura da alfândega do Peru, cuja funcionária havia saído para almoçar, as jovens damas ainda resolveram bater um prato-feito em Assis Brasil, primeira cidade do nosso lado da fronteira, antes de pegar estrada. Alternativas? Não havia. Nenhuma outra alma viva para dividir o táxi na fronteira. O jeito foi esperar.

Saída de Assis Brasil às 15h para chegar em Brasilândia às 17h30. No caminho, entre um cochilo e outro, ouvi todas as peripécias possíveis e imagináveis do mundo do baixo meretrício. Em que período do ano rodar a bolsinha em Salvador? Sabia que aquela moça cobra das própria colegas de profissão para dar carona até o cabaré? Como é que aquela moça feia e cabeçuda consegue tantos gringos? E quando aquela outra colocou silicone? Essas são perguntas que eu jamais conseguiria responder se não tivesse feito este trecho da estrada em companhias dessas três jovens profissionais do sexo.

Lá em Brasilândia, houve mais uma troca de táxi. Desta vez, o motorista gostava de música sertaneja e ar condicionado no talo, o que me fez agradecer aos céus por estar de tênis e calça de trekking naquela hora. Por pouco, não neva do lado de dentro.

Tirando a temperatura polar, a trilha sonora e os pormenores do baixo meretrício que continuaram sendo citados incessantemente, a coisa estava indo até bem. Até que o motorista resolve avisar: "tem barreira ali na frente, todo mundo de cinto de segurança". Foi aí que eu reparei que eu era a única de cinto até o momento. O motorista reduz e os outros quatro começam a catar seu respectivo cinto.

Passagem pela barreira da Polícia Rodoviária Federal com os vidros baixados, para os guardas verem lá dentro. Mas verem o quê? Ora, para ver que uma das meninas não tinha, de fato, conectado o cinto da fivela. "Para o carro, por favor", disse o guarda. O motorista obedeceu. O guarda olha, manda abrir o porta-malas. Começa a revista das bagagens delas (as minhas duaas mochilinhas estavam comigo, entre as minhas pernas, no banco da frente). "Quê que eu tô fazendo aqui?", perguntei aos meus botões. Fingi que não era comigo e por lá fiquei, enquanto as jovens profissionais tentavam engalobar o guarda com aquele charme típico da profissão. Mas parece que não funcionou. E lá se foram os quatro - o motorista e as três jovens - até um balcão para ouvir sermão do guarda. Enquanto o motorista era multado, fui lá pedir para usar o banheiro. Banheiro limpinho. Já estava até esquecendo o que é isso.

Colhida a multa e ouvido o sermão, pé na estrada. O motorista pisou no acelerador. Perguntei quanto tempo tinha ainda até Rio Branco e pedi para ele me deixar na rodoviária internacional da capital do Acre.  Na chegada, o danado ainda tentou me extorquir mais R$10 reais pelo traslado, alegando aumento na tarifa depois do dia 1º de setembro. Neguei, mostrando o carimbo do dia 03 no meu passaporte e dizendo que não tinha havido aumento algum. Não paguei. As meninas seguiram caminho com o motorista, sabe-se para onde. Talvez elas quisessem negociar uma proposta alternativa de pagamento, sei lá...

No fim das contas, levei 22h até chegar em Rio Branco, sã e salva, mas ávida por um banho. Narrei brevemente os fatos para a minha irmã, que foi me buscar na rodoviária. "Tirou fotos das meninas?", perguntou ela. Disse que não, pois queria proteger a integridade delas. "Que integridade?", tascou minha irmã. Sei lá. Integridade é a única coisa que ninguém pode tirar da gente.

Fim da epopeia. Banho tomado. Caso contato. Agora vou dormir.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Acreanas

Quando eu disse que vinha para o Acre, alguns desavisados me perguntaram: "o Acre existe mesmo?"

Sim, meus caros, o Acre existe! Mas ele existe também na sua condição de ficção política e, por esta razão, não menos ficcional do que qualquer outro estado, como Minas Gerais ou São Paulo. O Acre é uma especie de ficção política nascida de uma negociação de Estado com Bolívia e consumada em uma prática de nacionalização de fronteiras territoriais. E onde quer que você vá, lá está a bandeira do Acre para lembrar ao passante que o território virou estado ainda na década de 1960. Vai-se o território, ficam as práticas de demarcação do território.


Rio Branco, capital do império, mostra que nem só de bandeiras hasteadas vive o Acre. Seu rio é seu grande patrimônio. Com ele, aprendemos as regras da fluência da vida e da permanência da mudança. Aprendemos, inclusive, sobre a possibilidade de mudanças sem crise. O rio é um velho que sabe das coisas!




O rio nos levou e nos trouxe de volta da mata, outro patrimônio sem preço. Depois de pularmos um abobral - cuidado com as ramas! - e saudarmos bananeiras e tangerineiras ribeirinhas, descobrimos que a mata nativa estava logo ali, a dois ou três passos da margem. 






O tempo e a distância que nos levaram até esta magnifica Samaúma, contudo, estão alem de qualquer medida. Não se tem notícia, no mundo dos homens, de quanto tempo se leva para chegar até ela. Diz-se que a Samaúma começa com as raízes neste mundo e só vai terminar em outra dimensão, lá onde as galhas se espalham e os olhos não alcançam mais. Segundo as crenças dos nativos desta terra, a Samaúma é morada dos Espíritos. Fomos lá ver. Ao que tudo indica, estavam todos dormindo quando chegamos.







O rio, a mata, a samaúma... e as amizades. O Acre nos presenteou com seus quatro patrimônios. E nos deixou de olhos vidrados no céu, plenos de gratidão. Quanta beleza nessa terra!




sábado, 2 de agosto de 2014

A ida dos que não voltaram

Depois de tanto tempo sem escrever aqui neste blog, sinto meus dedos enrijecidos e as ideias, frouxas. Escrever é realmente uma danada de uma pulsão que, quando não satisfeita, acaba atrofiando tudo: da inteligência que habita sob o couro cabeludo (ou não) até a pontinha mais sensível dos dedos.

Este post poderia se intitular "A volta dos que não foram", se eu tivesse voltando de algum lugar. Mas não é o caso. Ando tão desprendida dos meus velhos hábitos saudáveis - escrever é um deles, nadar é outro - que nem me reconheço mais. Portanto, não há volta, mas quase um desencontro. Por esta razão, nada de voltas nas voltas que a vida dá.

Por outro lado, é vero que estou de ida para algum lugar. Parto amanhã para fazer um treinamento de uma semana numa ilha. E isso não é piada. Faço até algumas de vez em quando, mas este não é o caso. E estando eu de ida marcada, agora é que não dá mesmo para celebrar a volta de nada.

Ficamos, portanto, com a ida dos que não voltaram, de tão fora de si que têm andado. Não vou nem procurar por mim mesma naquela ilha, porque, horas dessas, devo mesmo é estar vagando em alguma outra dimensão sideral. Quando eu voltar, vou contratar uma banda para me receber.

Findo o prolongado ínterim, resta-me avisar que  postagem é tão simplesmente para matar a saudade da escrita. Sim, ela me faz falta. Sem ela, não há volta nas tantas voltas que a vida dá.

Abraços para quem fica. Vou dormir porque já é tarde e amanhã eu começo meu caminho de ida. Até a volta.


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Aventura 4 x 4 : 4o dia

Chegamos, portanto, ao quarto e último dia de aventura: o dia do retorno a San Pedro de Atacama. Já havia comentado, há dias atrás, que a história desta viagem seria contada de maneira retrospectiva, por falta de acesso a Internet ao longo do trajeto.

Olhando agora para trás, vejo coincidir, à medida que narro esta última parte da minha viagem, três despedidas diferentes: a despedida da Bolívia, a despedida de San Pedro de Atacama (ambas ocorridas no dia 20/09) e a despedida de Santiago (que acontece neste exato momento).

A despedida da Bolívia aconteceu não sem um certo aperto no coração. Agora, cada um de nós cinco seguiria o rumo de suas vidas: Matt e Sara voltariam no dia seguinte para Santiago, onde moram; Juliana e Rodrigo seguiriam viagem para La Paz e, em seguida, para o Peru. E eu passaria mais alguns dias em Santiago, para onde partiria também no dia seguinte, só que em outro vôo.

A verdade é que as despedidas nunca são fáceis. Principalmente, quando se vive um ciclo de transformações internas tão intenso como o vivido durante esses poucos dias. A verdadeira viagem é aquela que nos transforma de maneira estrutural. E essa viagem, posso dizer sem risco de estar cometendo um exagero, alterou profundamente minhas disposições internas. Não sei exatamente quando isso se deu. Talvez o processo ainda nem sequer tenha terminado. Mas fato é que terminei essa viagem diferente de quando comecei. E sou muito grata a vida por esta possibilidade de transformação.

Basicamente, o caminho de volta se deu na ausência de qualquer atrativo. Ficamos hospedados em um vilarejo mais ou menos próximo da fronteira, para facilitar a passagem. Fizemos tudo o que fizemos na vinda, só que ao contrário: passamos pela alfândega boliviana primeiro, e pela chilena em seguida. Cheguei em San Pedro por volta das 13h, tempo o suficiente para tomar um banho longo, almoçar comida típica chilena e encomendar meu último passeio, que aconteceria entre 16h e 19h30 daquele mesmo dia, na Cordillera de la Sal, no Valle de la Luna e no Valle de la Muerte.

Confesso que foi um passeio com cara de final de festa. As pessoas eram outras, o clima era outro. Foi legal para fechar o ciclo e para dizer que terminei minha viagem a San Pedro com um belo pôr do sol.

Os dias seguintes, em Santiago, foram de natureza distinta das dias anteriores: menos contemplativa, talvez, se bem que igualmente introspectiva. Na capital do Chile, fiz dois tours de bicicleta com a turma de "La Bicicleta Verde", os quais foram essenciais para conhecer Santiago de maneira inusitada: aulas de história e cultura sendo dadas ao longo de paradas estratégicas na cidade. E posso até não ter visto os principais pontos turísticos da cidade, mas tive a grata oportunidade de rever Pedro Reyes, meu colega de doutorado no Canadá. Infelizmente, não pude tirar fotos com meu celular, cuja câmera resolveu dar biziu. Por isso, esta última parte da viagem fica sem registros fotográficos, pelo menos por enquanto.

Resumindo bem resumido: a hora de partir é também a hora de chegar. Fecha-se um ciclo e abre-se outro, ao mesmo tempo. Eis a riqueza e a beleza da vida dos que vieram antes de nós e também daqueles que virão depois.

domingo, 22 de setembro de 2013

Aventura 4 x 4: 3o dia

O terceiro e último dia de aventura é o dia em que se visita o salar propriamente dito. E o dia começa às 4h da manhã, cedo o suficiente para prepararmos nossas mochilas e cairmos no 4 x 4. Destino final: Isla Incahuasi para ver o sol nascer.

Essa ilha já foi, de fato, cercada de água. Mas isso foi há uns 40 mil anos atrás, antes do grande lago Michin secar. Do grande lago (que já fora mar), sobrou uma ilha com marcas de corais, cactus gigantes e mais de 10 mil km2 de sal no seu entorno, o que faz do Uyuni o maior deserto de sal do mundo.

O nascer do sol foi especial. De um lado, a lua cheia se punha. De outro, nos saudava o grande astro rei. E lá estávamos nós no meio, divididos entre o belo e o esplendoroso.

Tomamos o café da manha à beira do lago e demos início àquela que seria a parte mais lúdica da viagem: as fotos com jogos de perspectiva! O salar, por ser branco e continuo, é um verdadeiro paraíso para brincar com a perspectiva e fazer pessoas parecerem miniaturas, dependendo da distância que se toma da câmera. Sensação pura de ter voltado à infância!

A parada seguinte foi no Hotel de Sal, desativado, mas que funciona como "museu" de esculturas de sal e como ponto de venda de artesanato boliviano. Sai de lá com um poncho e um chapéu para o meu pai. O hotel também prima pelo exotismo ao oferecer banheiros a céu aberto. Felizmente estamos em um deserto!

Paramos em seguida para ver os "olhos" do deserto, que nada mais são do que buracos de onde borbulham água e gases. Depois, as "minas" de sal, onde se separa e beneficia sal para consumo humano.

Finalmente, o cemitério de trens, outro lugar perfeito para reviver outra vez a infância. Dali para um mercado de Uyuni foi um pulo, seguido de almoço e nostalgia. Nosso passeio estava chegando ao fim. De nós cinco, dois ficariam em Uyuni para seguir viagem para La Paz. E o resto voltaria no dia seguinte para San Pedro de Atacama.

Deserto: foi bom te conhecer! Há tempos que não me divertia tanto.