Não me canso de repetir que este mundo em que vivemos é um mundo de paradoxos. Não raro, esses paradoxos vêm travestidos de ironia, como demonstram os exemplos a seguir.
Notícia publicada hoje na Folha de S. Paulo explica como a empresa californiana Imperfect Produce acaba de descobrir um novo filão de mercado: ela vende alimentos "cosmeticamente contestados", isto é, espécimes de legumes e verduras consideradas "feias" ou "contorcidas o suficiente para perder um hipotético concurso de beleza contra similares mais redondas ou mais simétricas."
A ideia por trás do novo filão é que esses legumes e verduras, justamente por não alcançarem um determinado padrão estético (sim, ele existe), são mais facilmente descartados pelas grandes redes de supermercado. A saída, portanto, é tornar o seu aspecto peculiar economicamente atrativo. Um dos supermercados que comprava alimentos feios da Imperfect Produce, por exemplo, chegava a vender esses exemplares por um preço 40% inferior aos de aparência perfeita.
Aparentemente, a estratégia visa também a reduzir o desperdício de comida, o que em si justifica toda a tietagem em cima de um pepino torto ou de cenouras grudadas umas às outras. Difícil é engolir (literalmente) variações em torno do mesmo tempo do combate ao desperdício, como o supermercado Daily Table, sediado na cidade de Boston, que vende "alimentos embalados com a data de vencimento passada, mas que ainda são seguros (e saborosos) o suficiente para consumo."
Enquanto o alimento feio ou com data de validade vencida é revalorizado na América do Norte, cá embaixo, no País das Mil e Uma Plásticas, a beleza e o luxo associados ao prazer da leitura perdem espaço comercial com o fechamento da Editora Cosac Naify. Conhecida por produzir livros de arte de luxo e com "produção gráfica sofisticada", privilegiando, muitas vezes, livros de difícil consumo.
Moral da história: legumes feios e livros bonitos são privilégios para poucos em um país de contrastes como o nosso, cuja parte expressiva da população considera as cirurgias plásticas como verdadeiras prioridades parceláveis a perder de vista ou financiadas por consórcio.
A autora criou esse blog para divagar sobre o que lê diariamente nos jornais, com foco principalmente (mas não exclusivamente) na cobertura diária de ciência. Suas principais armas são a ironia de inspiração machadiana e um computador bacaninha (ela tirou o escorpião do bolso e comprou um de verdade). Ao citar alguma passagem, por favor, dê créditos para a autora: até para as grandes bobagens o direito autoral é inalienável.
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terça-feira, 1 de dezembro de 2015
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Sobras e faltas
O que acabo de ler chama para a reflexão: "Levantamento realizado pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) mostra que 47% dos consumidores brasileiros já pagou por algum produto que não usou" (http://www.hojeemdia.com.br/noticias/economia-e-negocios/quase-metade-dos-consumidores-ja-comprou-algo-que-n-o-usou-1.184447). Ou seja, quase metade da nossa população já jogou dinheiro fora em algum momento da sua vida.
Bem, se fôssemos uma sociedade da abundância compartilhada (em que todos têm acesso à cesta básica), mais igualitária (sem os mais de 20% da população vivendo em estado de indigência) e com os maiores índices de escolaridade do planeta, ainda ia. Mas não somos. Pelo contrário, ainda temos 28% da população morando em áreas precárias (http://g1.globo.com/brasil/noticia/2012/08/brasil-avanca-mas-e-quarto-pais-mais-desigual-da-america-latina-diz-onu.html).
Mas a situação parece bem pior do que se imagina. De acordo com a notícia publicada no jornal Hoje em Dia online, "seis em cada dez entrevistados admitem que já ficaram endividados por adquirir algum bem que não precisavam ter comprado".
A explicação para tamanha estupidez? Nada alentadora, já vou avisando: "isso acontece, segundo a pesquisa, porque o consumidor brasileiro tende a se preocupar com a imagem que transmite às pessoas do seu convívio, idealizando para si próprio um padrão de consumo que muitas vezes não corresponde ao orçamento pessoal".
Como diria aquela velha expressão: "eu poderia ter ido dormir sem essa".
Boa noite para quem fica!
Bem, se fôssemos uma sociedade da abundância compartilhada (em que todos têm acesso à cesta básica), mais igualitária (sem os mais de 20% da população vivendo em estado de indigência) e com os maiores índices de escolaridade do planeta, ainda ia. Mas não somos. Pelo contrário, ainda temos 28% da população morando em áreas precárias (http://g1.globo.com/brasil/noticia/2012/08/brasil-avanca-mas-e-quarto-pais-mais-desigual-da-america-latina-diz-onu.html).
Mas a situação parece bem pior do que se imagina. De acordo com a notícia publicada no jornal Hoje em Dia online, "seis em cada dez entrevistados admitem que já ficaram endividados por adquirir algum bem que não precisavam ter comprado".
A explicação para tamanha estupidez? Nada alentadora, já vou avisando: "isso acontece, segundo a pesquisa, porque o consumidor brasileiro tende a se preocupar com a imagem que transmite às pessoas do seu convívio, idealizando para si próprio um padrão de consumo que muitas vezes não corresponde ao orçamento pessoal".
Como diria aquela velha expressão: "eu poderia ter ido dormir sem essa".
Boa noite para quem fica!
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