UA-89169382-1 Crônicas de Juvenal: fotografia
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sexta-feira, 6 de março de 2015

Neuro-atrevimento

Esta é para ir dormir pensando no quanto essas mídias digitais têm facilitado o acesso de leigos desavisados ao campo da fotografia.

Ben Savard, um "produtor de mídia digital", estava bastante entregue à sua tarefa de fotografar polvos usados em experimentos por alunos de neurociência do Middlebury College, quando foi surpreendido (http://oglobo.globo.com/sociedade/tecnologia/produtor-de-midia-fotografa-polvo-com-gopro-mas-cefalopode-rouba-lhe-camera-vira-mesa-15508112).

Savard teria explicado ao site “Mother Nature Network” que, após configurar seu modelito de GoPro para uma sequência de fotos em timelapse, eis que " um dos cefalópodes mais atrevidos pegou a câmera e virou-a para mim tirando algumas fotos." Como se não bastasse, o polvo fotógrafo tirou onda de fotógrafo: "Naqueles poucos segundos, o audacioso polvo disparou uma foto surpreendentemente boa de Savard."

Palmas para o polvo que, com tantos braços, ensinou um deles a fotografar. Mas mérito mesmo pode ser o dos alunos de neurociências, que têm usado os polvos para "observar se a espécie pode abrir caixas de comida mais rapidamente depois de ver outros polvos fazendo o mesmo." Tudo indica que o atrevimento do polvo acabou forjando um bom prognóstico de carreira para esses futuros pesquisadores: afinal, se funcionou com fotografia, por que não com latas de comida?

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Analogias digitais

Quem não se lembra daquela expressão (mais velha do que andar para a frente) que diz que "fulano mata a cobra e mostra o pau"? Pois é: foi inevitável lembrar dela após ler esta notícia publicada hoje no jornal Folha de S. Paulo online (http://classificados.folha.uol.com.br/negocios/2013/07/1311254-restaurante-mostra-ao-cliente-quem-pegou-o-peixe.shtml).

Não que se mate a cobra. Também não há pau sendo mostrado. Mas, na pior das hipóteses, uma analogia com a famosa expressão é possível, já que mostrar detalhes dos bastidores do abate de animais - neste caso especifico, de peixes - acabou virando moda nas Terras do Tio Sam. Ou, pelo menos, está em vias de.

"Rob Ruiz, do Harney Sushi, desenvolveu um sistema pela qual o cliente pode ver onde o peixe que ele está comendo foi pescado, quanto dessa espécie existe no mundo e até mesmo o rosto dos pescadores responsáveis pela refeição".

A razão para tanto? Matar a cobra e mostrar o pau, isto é: provar que o peixe oferecido no Harney Sushi, um restaurante japonês localizado na cidade de San Diego, não usa de artifícios comumente utilizados em restaurante do gênero, a saber: "injetar monóxido de carbono no alimento para deixa-lo vermelho mesmo depois de vencida a validade"; ou, tão ruim quanto, "processar restos de peixe e vendê-los como uma peça nobre".

O método de identificação da procedência do peixe funciona com base em um dispositivo chamado QR Code. "O QR Code é um quadrado que se assemelha a um código de barras. Quando aponta-se a câmera do smartphone para um deles, o usuário é direcionado a uma página". Ao escanear este código, o cliente é imediatamente remetido a uma página, onde ele pode acessar a foto de seu pescador de preferência.

Mas, como toda analogia tem limites, vale listar aqui alguns deles:

1) a ideia funciona bem com peixes, mas corre o risco de ser traumatizante com vacas: já imaginou como se daria a visualização dos detalhes sórdidos de cada um dos funcionários do matadouro onde o chifrudo foi abatido?

2) o dispositivo QR Code exige banda larga e a presença de um celular smartphone, sendo, portanto, de pouco uso na Somália (aliás, tem alguém realmente interessado em conhecer a procedência de qualquer alimento na Somália?);

3) o visual do pescador pode passar a contar na escolha do peixe, variável que escapa completamente ao controle do dono do restaurante;

4) finalmente, há que se aventar a possibilidade de o experimento descambar para um show de exibicionismo: vai que o profissional empolga e engata uma de suas famosas conversas de pescador?

Este último fato justificaria, por si só, uma outra analogia: o encontro da fome com a vontade de comer. Mas qual seria o problema, no final das contas? Não é de analogia em analogia que a galinha enche o papo?



terça-feira, 26 de março de 2013

Beleza pura

Gosto de desafios porque são eles que fazem a vida valer a pena. Mas Kei Akatsu, um estudante da Universidade de Ciência de Tóquio, elegeu um para si um desafio que é bem maior do que ele imagina: "ele quer viajar o mundo para tirar fotos de mulheres bonitas e montar uma espécie de catálogo" (http://oglobo.globo.com/megazine/estudante-tem-projeto-de-rodar-mundo-catalogando-garotas-bonitas-7939547).

Aliás, seu "catálogo" já tem nome: Beauty World Map, um site que apresenta fotos, organizadas "por locais de origem", das beldades que ele encontrou em suas viagens fora do Japão. Além de situar suas modelos geograficamente, "cada sessão de fotos vem também acompanhada de um perfil da gata", conforme explica notícia publicada hoje no jornal O Globo online.

Aparentemente, o maior desafio de Akatsu é a obtenção de financiamento para sua empreitada: após transformar seu intento em projeto e inscrevê-lo em um site de crowdfunding, "até agora, o rapaz conseguiu arrecadar aproximadamente US$ 800 (cerca de R$ 1.600), o que ainda é pouco perto da quantia que ele precisa: US$ 11 mil (R$ 22 mil)".

Não que o montante fosse absurdamente elevado. O problema, no meu entender, é de ordem metodológica, o que pode tornar o intento mais difícil (para não dizer inalcançavel). O primeiro passo previsto no projeto prima pela obviedade: "Durante as jornadas, ele se aproximaria de várias garotas bonitas e pediria para tirar suas fotos". Desnecessário dizer que o consentimento das fotografadas é essencial para a concretização do projeto (a menos, claro, que ele queira arriscar o próprio bolso se defendendo de ações judiciais movidas por uso indevido de imagens).

Já o segundo passo comporta riscos alguns evidentes: "O estudante ainda pretende documentar essas tentativas de aproximação com as garotas (o que deve gerar vídeos muito engraçados)". Fora sua pretensão documental, o que dá um certo ar de "making of" à empreitada, existe a expectativa de gerar novos subprodutos impressos com o material coletado. Isto é, "na medida em que produzir o material, ele fará o upload dos vídeos e fotos para o 'Beauties World Map'. As coleções de fotos de garotas e também paisagens bonitas poderão ser compiladas em livros no futuro", explica a notícia.

Agora, quando o assunto é capacitação para concretizar o projeto, então as palavras-chave são "desastre à vista": "Segundo o site 'Rocket News 24', depois de passar seis meses em Vancouver conhecendo meninas e fotografando-as de improviso, ele aperfeiçoou as habilidades necessárias para realizar seu projeto". Mas quais seriam essas habilidades?

Sinto muito, mas a notícia não fala. Em contrapartida, ela deixa muito claro que a estratégia do jovem está alicerçada sobre uma série de equívocos: para ir de encontro à beleza mais pura, ele não precisa rir de si mesmo, nem muito menos fazer com que as outras pessoas riam com ele da sua própria sorte. Primeiro, porque diante da beleza mais genuína, hão de lhe faltar palavras. Segundo, porque as belezas mais comoventes fazem chorar e não rir.

Meu conselho? Que ele largue a mão de ser besta e dê-se o tempo de ouvir e refletir sobre esta receita que Caetano Veloso nos legou em tempos mais inspirados, quando ainda não existia crowdfunding e era de bom tom enaltecer "todos os búzios" e "todos os ócios".

Fonte: http://youtu.be/zjb1ZYz8RlU