UA-89169382-1 Crônicas de Juvenal: modelo estético
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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Negativas

Como a iminência - fictícia ou real - do fim do mundo, nada mais oportuno do que colocar os pingos nos "is". Ou lenha na fogueira, como queiram. A hora é agora, porque se o mundo acabar mesmo, pelo menos fica o consolo de que você  não passou desta para melhor engasgado com as asneiras que vê pela frente todos os dias.

Pois bem, meus amigos, o fim do mundo não está próximo: ele já está aí, o tempo todo, do seu ladinho. Na verdade, o mundo já vem acabando a passos lentos há muito tempo. A prova cabal desta lenta degradação da existência feliz e livre de pré-concepções auto-limitadoras é a busca obsessiva por um padrão de beleza esteticamente impossível de se obter pelas vias naturais. Ou pior ainda: um padrão estético incompatível com a própria saúde física - o que em si já atesta uma certa descompensação mental e emocional.

Vejamos, pois, o motivo de tanto escárnio: senhoras e senhores, a bola da vez em termos de padrão de beleza - pasmem! - é um negócio que se chama "barriga negativa". "O que vem a ser: um abdome com curvatura invertida. Nesse corpo, os ossos do quadril e das costelas são mais proeminentes que a barriga" (http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1198390-barriga-negativa-e-a-ultima-loucura-na-busca-do-corpo-perfeito.shtml).

Mas o que há de tão grotesco nisso - perguntariam as almas mais ingênuas - afora o fato de ser este um objetivo praticamente inalcançável pelos métodos "naturais" fornecidos pela Mãe Natureza (aliás, um pecadinho muito do venial aqui no País das Mil e Uma Plásticas)?

Bem, até os especialistas da área convergem neste ponto: nos dizeres do fisiologista do esporte Turíbio Leite de Barros, "não tem como inverter a curvatura do músculo. Para ter uma barriga côncava, a pessoa precisa perder, além de gordura, massa magra". Ou seja, a moda se apoia numa combinação de dietas e exercícios que acabam virando, no final das contas, uma anti-ginástica.

E tem mais gente endossando a conclusão de que a obsessão por esssa tal de barriga negativa constitui a mais deslavada burrice dos últimos tempos: "na opinião do educador físico Saturno de Almeida, é uma estética na contramão da saúde" e pode constituir um indicativo de anorexia.

Barrigas negativadas, cérebros idem. Para obtê-las será necessário expulsar seu amor próprio e pedir que ele não volte nunca mais. No final das contas, acabar com a barriga neste nível e com o mundo, é tudo parte de um processo só. E tenho dito: antes que o mundo acabe mesmo.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

No túnel do tempo da publicidade

Algum dia, em algum lugar do planeta, alguém há de argumentar que eu só sirvo para falar mal da imprensa cotidiana. Então já vou me antecipando a essa crítica e dizendo que não é verdade: eu também sou capaz de me estarrecer com a publicidade. Ela nos fornece um espelho interessante daquilo que somos ou que fomos. Ou melhor: ela fornece um espelho daquilo que um grupo de profissionais acredita ser o que desejamos: tanto aquilo que desejamos ser, como aquilo que desejamos ter.

A colocação anterior carece de exemplos. Partamos do anúncio acima, retirado de um banco de dados que formei há uns 5 anos. Esta publicidade de sungas da Poesi, que foi publicada na Veja de 31 de outubro de 1979 (p.5), mostra como andava o ideal de corpo masculino naqueles idos.

Passados 25 anos, o ideal de corpo masculino ganhou, no mínimo, vários centímetros de massa magra. O fato de que o produto anunciado pouco precisasse apelar para a sensualidade do corpo masculino para dar o seu recado - e aqui estamos falando particularmente de uma campanha de doação de órgãos promovida pelo governo do Estado de Minas Gerais e publicada na Revista Isto É de 10 de novembro de 2004 (p.78) - só vem a confirmar a minha intuição de que os modelos estéticos são tanto mais sugestivos, quanto menos forem absolutamente necessários para o anúncio em questão.

Se, no primeiro exemplo, os três cavaleiros parecem envergonhados e nem sequer encaram de frente o olhar do(a) leitor(a) - talvez porque o slogan anuncie "maiôs para uma amor de verão", ao passo que eles estão só de sunga! - no segundo, o modelo foi "decepado", preservando-se assim uma situação de "anonimato". Sobrou só um corpo pedindo para o leitor(a) ter o desprendimento necessário para encarar a doação de órgãos. Na primeira publicidade, a intenção de seduzir estava óbvia demais para ser assumida de frente. Na segunda, deslocada demais do objetivo do anúncio para ser admitida enquanto tal.

Engraçadas essas publicidades. Na pior das hipóteses, elas me deram uma dimensão de como os gostos mudam. Fica aqui a minha provocação: "Olhos nos olhos, quero ver o que você faz!" Compra a sunga ou doa um rim? Isso é você quem escolhe!