Depois do drama, a sátira. E ninguém melhor do que Juó Bananére, um joão-banana que fez da poesia brasileira um negócio mais alegre e engraçado.
Para quem não sabe (e eu mesma não sabia até ganhar o livro em questão), Juó Bananére é o pseudônimo de Alexandre Ribeiro Marcondes Machado que, em 1915, teve a brilhante ideia de escrever La Divina Increnca e tornar-se o pai do macarronismo no Brasil. Ao prefaciar a obra em 1958, Otto Maria Carpeaux explicou que macarronismo é uma "mistura intencional e literária de duas línguas para fins parodísticos" (p. xi).
O que Juó Bananére faz nada mais é do que misturar o italiano com o português para satirizar algumas coisas que faziam parte do seu universo: de um lado, a poesia parnasiana, com suas convenções e regras; de outro, os italianos recém-migrados para os subúrbios da cidade de São Paulo.
Com sua poesia satírica, Juó Bananére acende, portanto, vela para dois santos. Não vou me alongar mais nos comentários. Basta ler para rir. Espero que vocês se divirtam o tanto que eu me diverti com essa poesia tão saborosa quanto macarronada italiana!
Sodades de Zan Baolo
Tegno sodades dista poliçea,
Dista cidade chi tanto dimiro!
Tegno sodades disto çeu azur,
Das bellas figlia lá du Bó Ritiro.
Tegno sodades dus tempo pirdido
Xupano xoppi uguali d'un vampiro
Tegno sodades dos bigigno ardenti
Das bellas figlia lá du Bó Ritiro.
Tegno sodades lá da Pontigrandi,
Dove di notte se vá dá um giro,
I dove vó si spiá como n'un speglio,
As bellas figlia lá du Bó Ritiro.
Andove tê tantas piquena xique,
Chi a genti sê querê dá un sospiro,
Quano perto per caso a genti passa,
Das bellas figlia lá du Bó Ritiro.
Tegno sodades, ai de ti - Zan Paolo,
Terra chi eu vivo sempre n'um martiro
Vagabundeano come un begiaflore,
Atraiz das figlia lá du Bó Ritiro.
Tegno sodades da garôa fria,
Assustada com o sopro du Zefiro,
Quano io durmia ingoppa o collo ardenti
Das bellas figlia lá du Bó Ritiro.
A autora criou esse blog para divagar sobre o que lê diariamente nos jornais, com foco principalmente (mas não exclusivamente) na cobertura diária de ciência. Suas principais armas são a ironia de inspiração machadiana e um computador bacaninha (ela tirou o escorpião do bolso e comprou um de verdade). Ao citar alguma passagem, por favor, dê créditos para a autora: até para as grandes bobagens o direito autoral é inalienável.
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terça-feira, 7 de julho de 2015
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Contras as vicissitudes da ocultação, Juó Bananére!
Pode parecer mania de perseguição minha com o senhor Michel Temer, mas não é. Quase caí para trás esta manhã quando li uma matéria sobre sua reação adversa à súbita popularidade de sua jovem esposa na posse da Presidente Dilma. Pior: parece o Sr. Temer esconde a mulher! Dedos no teclado, pronta para destilar meu veneno, fui procurar a tal matéria agora à tarde, à procura dos fatos. Mas cadê? Sumiu a matéria! Não deu nem tempo de falar mal dela! Mas eu juro que ela estava lá!!!
Já que estamos falando de sumiço, aqui na terra das Minas e das Gerais, vem de longa data a expressão "esconder o ouro". É verdade que o hábito endêmico de sonegar impostos e jamais dar a real dimensão das riquezas possuídas é justificado pelas nossas raízes históricas de resistência ao jugo colonial. Mas raízes históricas viram um álibi interessante, fazendo muitas vezes o desvio de conduta ganhar ares determinação positivista.
Mas não é só aqui nas Alterosas que as pessoas escondem as coisas. Uma amiga baiana me contou uma vez que lá na terra dela, estado com a maior população negra do país, a expressão "esconder a avó" era aplicada em situações em que o semblante mestiço não negava a origem da cor. Ou seja, quando alguém dizia, "essa aí esconde a avó", insinuava-se que a pessoa em questão tinha antecedentes raciais - negro na maior parte dos casos - que seriam supostamente pouco meritórios da visibilidade pública. Numa sociedade racista como a nossa, padrões estéticos e comportamentais dominantes criam desconforto em quem neles não se encaixa. Esconder é, portanto, uma estratégia de quem opta por negar uma qualidade ou um pertencimento. Mas nem tudo pode ser escondido. Ou pode?
Tem gente que acha que sim. Algumas pessoas, por exemplo, teimam em esconder o que têm de melhor, com medo de ter de distribuir ou compartilhar sua riqueza. Outros sentem vergonha em ter ou ser justamente aquilo que não é valorizado, preferindo esconder ou camuflar o objeto da desvalorização.
Entre uma loucura ou outra, prefiro a paródia do Juó Bananére. Pseudônimo usado por Alexandre Ribeiro Marcondes Machado, Bananére tripudia dos versos de Olavo Bilac - "Ora (direis), ouvir estrelas! Certo, Perdeste o senso!" - numa língua inventada, uma espécie de italiano macarrônico que imitava o sotaque típico dos bairros imigrantes de São Paulo do início do Séc. XX.
U vi strella
Che scuitá strella, né meia strella!
Vucê stá maluco! e o io ti diró intanto,
Chi p'ra iscuitalas moltas vezes livanto,
I vô dá una spiada na gianella.
I passo as notte acunversáno c'oella,
Inguanto che as otra lá d'un canto
Stó mi spiano. I o sol come un briglianto
Naçe. Oglio p'ru çéu: - Cadê strella!?
Direis intó: - O' migno inlustre amigo!
O chi é chi as strellas ti dizia
Quano illas viéro acunversá contigo?
E io ti diró: - Studi p'ra intendela,
Pois só chi giá studô Astrolomia,
E' capaiz di intendê istas strella.
Juó Bananére, La Divina Increnca. São Paulo, Ed. 34, 2001, p. 25.
Na contramão de Bilac, Bananére chuta o pau da barraca e admite não escutar estrela nenhuma, não escondendo, portanto, sua frustração. Na ignorância de quem pouco sabe, Bananére é, no mínimo, mais honesto. E ensina: ao invés de esconder, a saída é estudar para entender.
P.S.= Meus agradecimentos ao meu cumpadre Washington (que não é o do Tchan) pelo excelente presente de ano novo!
Já que estamos falando de sumiço, aqui na terra das Minas e das Gerais, vem de longa data a expressão "esconder o ouro". É verdade que o hábito endêmico de sonegar impostos e jamais dar a real dimensão das riquezas possuídas é justificado pelas nossas raízes históricas de resistência ao jugo colonial. Mas raízes históricas viram um álibi interessante, fazendo muitas vezes o desvio de conduta ganhar ares determinação positivista.
Mas não é só aqui nas Alterosas que as pessoas escondem as coisas. Uma amiga baiana me contou uma vez que lá na terra dela, estado com a maior população negra do país, a expressão "esconder a avó" era aplicada em situações em que o semblante mestiço não negava a origem da cor. Ou seja, quando alguém dizia, "essa aí esconde a avó", insinuava-se que a pessoa em questão tinha antecedentes raciais - negro na maior parte dos casos - que seriam supostamente pouco meritórios da visibilidade pública. Numa sociedade racista como a nossa, padrões estéticos e comportamentais dominantes criam desconforto em quem neles não se encaixa. Esconder é, portanto, uma estratégia de quem opta por negar uma qualidade ou um pertencimento. Mas nem tudo pode ser escondido. Ou pode?
Tem gente que acha que sim. Algumas pessoas, por exemplo, teimam em esconder o que têm de melhor, com medo de ter de distribuir ou compartilhar sua riqueza. Outros sentem vergonha em ter ou ser justamente aquilo que não é valorizado, preferindo esconder ou camuflar o objeto da desvalorização.
Entre uma loucura ou outra, prefiro a paródia do Juó Bananére. Pseudônimo usado por Alexandre Ribeiro Marcondes Machado, Bananére tripudia dos versos de Olavo Bilac - "Ora (direis), ouvir estrelas! Certo, Perdeste o senso!" - numa língua inventada, uma espécie de italiano macarrônico que imitava o sotaque típico dos bairros imigrantes de São Paulo do início do Séc. XX.
U vi strella
Che scuitá strella, né meia strella!
Vucê stá maluco! e o io ti diró intanto,
Chi p'ra iscuitalas moltas vezes livanto,
I vô dá una spiada na gianella.
I passo as notte acunversáno c'oella,
Inguanto che as otra lá d'un canto
Stó mi spiano. I o sol come un briglianto
Naçe. Oglio p'ru çéu: - Cadê strella!?
Direis intó: - O' migno inlustre amigo!
O chi é chi as strellas ti dizia
Quano illas viéro acunversá contigo?
E io ti diró: - Studi p'ra intendela,
Pois só chi giá studô Astrolomia,
E' capaiz di intendê istas strella.
Juó Bananére, La Divina Increnca. São Paulo, Ed. 34, 2001, p. 25.
Na contramão de Bilac, Bananére chuta o pau da barraca e admite não escutar estrela nenhuma, não escondendo, portanto, sua frustração. Na ignorância de quem pouco sabe, Bananére é, no mínimo, mais honesto. E ensina: ao invés de esconder, a saída é estudar para entender.
P.S.= Meus agradecimentos ao meu cumpadre Washington (que não é o do Tchan) pelo excelente presente de ano novo!
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