Após uma breve pausa para descanso, cá estou eu já na reta final do último dos desafios. Antes de passar ao derradeiro poema, gostaria de frisar que este desafio poético não passa de um desafio de meia-tigela: não há nada mais prazeroso que ser desafiado a publicar e comentar poesia. Só que desafio que é desafio pode até dar prazer, mas tem que dar frio na barriga também. Do contrário, não é desafio.
Foi em consequência de um frio na barriga, portanto, que escolhi o poema que cito hoje. A primeira leitura me arregalou os olhos; a segunda me revirou as vísceras; mas foi na terceira que saí convencida da genialidade do seu autor.
Não, queridos leitores, lamento informar mas o autor de hoje não é conhecido da grande massa (ainda que ele venha angariando fãs incondicionais - como eu! - nas redes sociais). Por enquanto, devo ressaltar. Meu dever - e o seu, tão logo ler este poema - é semear seu nome até os confins da Ursa Maior, de modo que sua poesia continue varrendo universos e enternecendo pessoas.
Ok, vou parar com o suspense. Com vocês, senhoras e senhores, uma bela amostra da poesia visceral de Wender Montenegro.
De pedras e ganhos
Me dá uma pedra, Senhor.
onde eu possa recostar o sonho.
Uma pedra de mó que me sirva de âncora;
uma pedra só lâmina
pra retirar escamas do remorso,
mais que isso, vísceras.
Pedras-de-lei para anistiar ofensas
e imprimir perdões.
Dá-me a alegria de um seixo leve:
quero das margens vê-lo milagrar
passos de dança sobre o chão das águas.
Uma pedra-alimento que seja,
dessas que as rolas vêm colher aos bandos
na hora da sesta...
Minha pedra é caminho, Senhor,
e eu quero uma pedra-canção!
Wender Montenegro. Casca de nós. Guaratinguetá, Ed. Penalux, 2012, p. 65.
A autora criou esse blog para divagar sobre o que lê diariamente nos jornais, com foco principalmente (mas não exclusivamente) na cobertura diária de ciência. Suas principais armas são a ironia de inspiração machadiana e um computador bacaninha (ela tirou o escorpião do bolso e comprou um de verdade). Ao citar alguma passagem, por favor, dê créditos para a autora: até para as grandes bobagens o direito autoral é inalienável.
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segunda-feira, 13 de julho de 2015
sexta-feira, 10 de julho de 2015
Desafio poético - 4º dia
No 4º dia do desafio poético, Lya Luft vem deixar seu recado para quem vive essa vida corrida e não tem tempo nem hora para amar.
Pela urgência do tema, pela exatidão dos termos, pela fluidez dos versos, decidi que hoje eu vou me abster de mais comentários. Para viver e amar, basta este aviso.
Aviso
Se me quiseres amar,
terá de ser agora: depois
estarei cansada.
Minha vida foi feita de parceria com a morte:
pertenço um pouco a cada uma,
para mim sobrou quase nada.
Ponho a máscara do dia,
um rosto cômodo e simples,
e assim garanto a minha sobrevida.
Se me quiseres amar,
terá de ser hoje:
amanhã estarei mudada.
Lya Luft. "Aviso" IN: Para não dizer adeus. Rio de Janeiro, ed. Record, 2005, p. 39.
Pela urgência do tema, pela exatidão dos termos, pela fluidez dos versos, decidi que hoje eu vou me abster de mais comentários. Para viver e amar, basta este aviso.
Aviso
Se me quiseres amar,
terá de ser agora: depois
estarei cansada.
Minha vida foi feita de parceria com a morte:
pertenço um pouco a cada uma,
para mim sobrou quase nada.
Ponho a máscara do dia,
um rosto cômodo e simples,
e assim garanto a minha sobrevida.
Se me quiseres amar,
terá de ser hoje:
amanhã estarei mudada.
Lya Luft. "Aviso" IN: Para não dizer adeus. Rio de Janeiro, ed. Record, 2005, p. 39.
quarta-feira, 8 de julho de 2015
Desafio poético - 3º dia
No terceiro dia do meu desafio poético, a dica é chutar o pau da barraca com a poetisa Wislawa Szymborska. E se há alguém que o faz com graça e leveza, é ela mesma.
Para tanto, escolhi "Sob uma estrela pequenina", um primor de poema feito para quem pretende, deliberadamente, frustrar as expectativas que foram colocadas sobre seus pobres ombros. Algumas dessas expectativas, fomos nós mesmos que nutrimos. Outras tantas e várias, foram sendo plantadas pelas diversas pessoas que atravessaram nossa existência ao longo dos anos. No final das contas, qualquer uma dessas expectativas cria suas próprias condições de desassossego: se elas forem atendidas, vivemos o sonho alheio e nos distanciamos de nós mesmos; se forem frustradas, ficamos de joelhos para nossos credores, pagando juros sobre juros.
Pois então: este poema de Wislawa Szymborska é um perfeito chute no pau da barraca de quem optou por não cumprir as regras do ritual. O bacana é que ela faz isso com a graça de quem se desculpa de algo. Mas desculpar-se de quê, afinal de contas? Da liberdade de ser o que se quer, muito provavelmente.
Vamos ao poema, sem mais delongas.
Sob uma estrela pequenina
Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na
[memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por
[segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como
[primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco
[de minuetos.
Me desculpe a gente nas estações pelo sono das cinco da
[manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas
[pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostra magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não poder estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não poder ser cada um e cada
[uma.
Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgue má, fala, por tomar emprestado palavras
[patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves.
Wislawa Szymborska [poemas]. Tradução de Regina Przybycien. São Paulo, Companhia das Letras, 2011, p. 50-51.
Para tanto, escolhi "Sob uma estrela pequenina", um primor de poema feito para quem pretende, deliberadamente, frustrar as expectativas que foram colocadas sobre seus pobres ombros. Algumas dessas expectativas, fomos nós mesmos que nutrimos. Outras tantas e várias, foram sendo plantadas pelas diversas pessoas que atravessaram nossa existência ao longo dos anos. No final das contas, qualquer uma dessas expectativas cria suas próprias condições de desassossego: se elas forem atendidas, vivemos o sonho alheio e nos distanciamos de nós mesmos; se forem frustradas, ficamos de joelhos para nossos credores, pagando juros sobre juros.
Pois então: este poema de Wislawa Szymborska é um perfeito chute no pau da barraca de quem optou por não cumprir as regras do ritual. O bacana é que ela faz isso com a graça de quem se desculpa de algo. Mas desculpar-se de quê, afinal de contas? Da liberdade de ser o que se quer, muito provavelmente.
Vamos ao poema, sem mais delongas.
Sob uma estrela pequenina
Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na
[memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por
[segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como
[primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco
[de minuetos.
Me desculpe a gente nas estações pelo sono das cinco da
[manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas
[pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostra magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não poder estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não poder ser cada um e cada
[uma.
Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgue má, fala, por tomar emprestado palavras
[patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves.
Wislawa Szymborska [poemas]. Tradução de Regina Przybycien. São Paulo, Companhia das Letras, 2011, p. 50-51.
terça-feira, 7 de julho de 2015
Desafio poético - 2º dia
Depois do drama, a sátira. E ninguém melhor do que Juó Bananére, um joão-banana que fez da poesia brasileira um negócio mais alegre e engraçado.
Para quem não sabe (e eu mesma não sabia até ganhar o livro em questão), Juó Bananére é o pseudônimo de Alexandre Ribeiro Marcondes Machado que, em 1915, teve a brilhante ideia de escrever La Divina Increnca e tornar-se o pai do macarronismo no Brasil. Ao prefaciar a obra em 1958, Otto Maria Carpeaux explicou que macarronismo é uma "mistura intencional e literária de duas línguas para fins parodísticos" (p. xi).
O que Juó Bananére faz nada mais é do que misturar o italiano com o português para satirizar algumas coisas que faziam parte do seu universo: de um lado, a poesia parnasiana, com suas convenções e regras; de outro, os italianos recém-migrados para os subúrbios da cidade de São Paulo.
Com sua poesia satírica, Juó Bananére acende, portanto, vela para dois santos. Não vou me alongar mais nos comentários. Basta ler para rir. Espero que vocês se divirtam o tanto que eu me diverti com essa poesia tão saborosa quanto macarronada italiana!
Sodades de Zan Baolo
Tegno sodades dista poliçea,
Dista cidade chi tanto dimiro!
Tegno sodades disto çeu azur,
Das bellas figlia lá du Bó Ritiro.
Tegno sodades dus tempo pirdido
Xupano xoppi uguali d'un vampiro
Tegno sodades dos bigigno ardenti
Das bellas figlia lá du Bó Ritiro.
Tegno sodades lá da Pontigrandi,
Dove di notte se vá dá um giro,
I dove vó si spiá como n'un speglio,
As bellas figlia lá du Bó Ritiro.
Andove tê tantas piquena xique,
Chi a genti sê querê dá un sospiro,
Quano perto per caso a genti passa,
Das bellas figlia lá du Bó Ritiro.
Tegno sodades, ai de ti - Zan Paolo,
Terra chi eu vivo sempre n'um martiro
Vagabundeano come un begiaflore,
Atraiz das figlia lá du Bó Ritiro.
Tegno sodades da garôa fria,
Assustada com o sopro du Zefiro,
Quano io durmia ingoppa o collo ardenti
Das bellas figlia lá du Bó Ritiro.
Para quem não sabe (e eu mesma não sabia até ganhar o livro em questão), Juó Bananére é o pseudônimo de Alexandre Ribeiro Marcondes Machado que, em 1915, teve a brilhante ideia de escrever La Divina Increnca e tornar-se o pai do macarronismo no Brasil. Ao prefaciar a obra em 1958, Otto Maria Carpeaux explicou que macarronismo é uma "mistura intencional e literária de duas línguas para fins parodísticos" (p. xi).
O que Juó Bananére faz nada mais é do que misturar o italiano com o português para satirizar algumas coisas que faziam parte do seu universo: de um lado, a poesia parnasiana, com suas convenções e regras; de outro, os italianos recém-migrados para os subúrbios da cidade de São Paulo.
Com sua poesia satírica, Juó Bananére acende, portanto, vela para dois santos. Não vou me alongar mais nos comentários. Basta ler para rir. Espero que vocês se divirtam o tanto que eu me diverti com essa poesia tão saborosa quanto macarronada italiana!
Sodades de Zan Baolo
Tegno sodades dista poliçea,
Dista cidade chi tanto dimiro!
Tegno sodades disto çeu azur,
Das bellas figlia lá du Bó Ritiro.
Tegno sodades dus tempo pirdido
Xupano xoppi uguali d'un vampiro
Tegno sodades dos bigigno ardenti
Das bellas figlia lá du Bó Ritiro.
Tegno sodades lá da Pontigrandi,
Dove di notte se vá dá um giro,
I dove vó si spiá como n'un speglio,
As bellas figlia lá du Bó Ritiro.
Andove tê tantas piquena xique,
Chi a genti sê querê dá un sospiro,
Quano perto per caso a genti passa,
Das bellas figlia lá du Bó Ritiro.
Tegno sodades, ai de ti - Zan Paolo,
Terra chi eu vivo sempre n'um martiro
Vagabundeano come un begiaflore,
Atraiz das figlia lá du Bó Ritiro.
Tegno sodades da garôa fria,
Assustada com o sopro du Zefiro,
Quano io durmia ingoppa o collo ardenti
Das bellas figlia lá du Bó Ritiro.
Desafio poético - 1º dia
Há vários dias - quiçá semanas - uma amiga me convidou para um desses desafios poéticos que andam grassando nas redes sociais. O desafio consistia em postar cinco poemas durante cinco dias seguidos.
Os dias se passaram e nada de eu arrumar tempo para catar meus versos preferidos. E aí a poesia foi ficando para depois, perdida entre os prazos, as lidas, os artigos. Agonizante, ela ainda quis crer que eu teria tempo para ela um dia desses aí, quando tarefa x ou y estivesse terminada.
Hoje, agradeço reiteradamente à poesia por ela não ter desistido de mim (o mesmo digo da amiga do desafio). Para aceitá-lo, contudo, achei por bem migra-lo para este blog, que é território todo meu, onde só me lê quem tem estômago para os faits divers, para as nerdices e para a ironia barata.
No entanto, quero deixar claro que trouxe o desafio para cá porque achei que a poesia ficaria bem ao lados das crônicas, que, por sinal, andam ficando mais esparsas do que eu gostaria. Para arejar este recinto, revigorá-lo e torná-lo um pouco mais útil para as almas errantes (aquelas que navegam pela Internet atrás de leitura acidentaçl), resolvi ir um pouco além da proposta inicial. Cada dia uma poesia, cada poesia um autor e cada autor um estilo, um sentimento, um sabor especial na ponta língua.
Vou começar então com o decano dos cinco autores, Manuel Bandeira, campeão olímpico de intensidade dramática nos 500 versos rasos. Escolhi o poema abaixo porque ele fala tanto de si próprio (o verso) quanto do seu autor: tão intenso e dramático, que por pouco não vira uma novela mexicana.
Senhoras e senhores, aqui vão os versos escolhidos do Manuel Bandeira:
Desencanto
Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia adente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.
Do livro: "Vou-me embora para Pasárgada e outros poemas" (Ediouro, 2ª ed., Rio de Janeiro, p. 7).
Os dias se passaram e nada de eu arrumar tempo para catar meus versos preferidos. E aí a poesia foi ficando para depois, perdida entre os prazos, as lidas, os artigos. Agonizante, ela ainda quis crer que eu teria tempo para ela um dia desses aí, quando tarefa x ou y estivesse terminada.
Hoje, agradeço reiteradamente à poesia por ela não ter desistido de mim (o mesmo digo da amiga do desafio). Para aceitá-lo, contudo, achei por bem migra-lo para este blog, que é território todo meu, onde só me lê quem tem estômago para os faits divers, para as nerdices e para a ironia barata.
No entanto, quero deixar claro que trouxe o desafio para cá porque achei que a poesia ficaria bem ao lados das crônicas, que, por sinal, andam ficando mais esparsas do que eu gostaria. Para arejar este recinto, revigorá-lo e torná-lo um pouco mais útil para as almas errantes (aquelas que navegam pela Internet atrás de leitura acidentaçl), resolvi ir um pouco além da proposta inicial. Cada dia uma poesia, cada poesia um autor e cada autor um estilo, um sentimento, um sabor especial na ponta língua.
Vou começar então com o decano dos cinco autores, Manuel Bandeira, campeão olímpico de intensidade dramática nos 500 versos rasos. Escolhi o poema abaixo porque ele fala tanto de si próprio (o verso) quanto do seu autor: tão intenso e dramático, que por pouco não vira uma novela mexicana.
Senhoras e senhores, aqui vão os versos escolhidos do Manuel Bandeira:
Desencanto
Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia adente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.
Do livro: "Vou-me embora para Pasárgada e outros poemas" (Ediouro, 2ª ed., Rio de Janeiro, p. 7).
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