No terceiro dia do meu desafio poético, a dica é chutar o pau da barraca com a poetisa Wislawa Szymborska. E se há alguém que o faz com graça e leveza, é ela mesma.
Para tanto, escolhi "Sob uma estrela pequenina", um primor de poema feito para quem pretende, deliberadamente, frustrar as expectativas que foram colocadas sobre seus pobres ombros. Algumas dessas expectativas, fomos nós mesmos que nutrimos. Outras tantas e várias, foram sendo plantadas pelas diversas pessoas que atravessaram nossa existência ao longo dos anos. No final das contas, qualquer uma dessas expectativas cria suas próprias condições de desassossego: se elas forem atendidas, vivemos o sonho alheio e nos distanciamos de nós mesmos; se forem frustradas, ficamos de joelhos para nossos credores, pagando juros sobre juros.
Pois então: este poema de Wislawa Szymborska é um perfeito chute no pau da barraca de quem optou por não cumprir as regras do ritual. O bacana é que ela faz isso com a graça de quem se desculpa de algo. Mas desculpar-se de quê, afinal de contas? Da liberdade de ser o que se quer, muito provavelmente.
Vamos ao poema, sem mais delongas.
Sob uma estrela pequenina
Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na
[memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por
[segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como
[primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco
[de minuetos.
Me desculpe a gente nas estações pelo sono das cinco da
[manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas
[pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostra magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não poder estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não poder ser cada um e cada
[uma.
Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgue má, fala, por tomar emprestado palavras
[patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves.
Wislawa Szymborska [poemas]. Tradução de Regina Przybycien. São Paulo, Companhia das Letras, 2011, p. 50-51.
A autora criou esse blog para divagar sobre o que lê diariamente nos jornais, com foco principalmente (mas não exclusivamente) na cobertura diária de ciência. Suas principais armas são a ironia de inspiração machadiana e um computador bacaninha (ela tirou o escorpião do bolso e comprou um de verdade). Ao citar alguma passagem, por favor, dê créditos para a autora: até para as grandes bobagens o direito autoral é inalienável.
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quarta-feira, 8 de julho de 2015
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Jornando no asteróide
Pronto, passou! E nada de anormal aconteceu. Não que não tenha acontecido eventos trágicos, impestivos ou tristes ao longo do dia de hoje. Mas isso sempre acontece, com ou sem a passagem do asteróide 2005 YU55, aquele que passaria (e de fato passou) a uma distância menor do que a que separa a Terra da lua.
Pois eu posso dizer que no espaço dos 325 mil km que nos separaram do 2005 YU55 precisamente às 21h28 (horário de Brasília) faltou mesmo foi lirismo (http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/1003781-em-rara-aproximacao-asteroide-passa-a-300-mil-km-da-terra-diz-nasa.shtml). Isso mesmo! Faltou poesia, versinhos, sonetos, operetas ou cantigas de ninar que falem de um asteróide esférico, cor de carvão, pobre fragmento errante que viaja só desde a formação do Sistema Solar há cerca de 4,5 bilhões de anos (http://oglobo.globo.com/ciencia/mat/2011/11/08/asteroide-passa-de-raspao-pela-terra-pouco-mais-de-325-mil-km-h-925766185.asp).
É muita solidão para um pequenino astro. Estava então prestes a imaginar um diálogo enternecido com o pobre 2005 YU55, quando uma coletânea de poemas de Wislawa Szymborska me cai no colo (obra do acaso quântico escondido na poeira do asteróide? Talvez). O problema é que alguém muito mais genial do que eu - a autora em questão - já tinha imaginado um diálogo com uma pedra. Neste diálogo entre uma poeta curiosa e um pedra durona, o desfecho é surpreendente.
O poema é o seguinte:
"Conversa com a Pedra
Bato à porta da pedra.
- Sou eu, me deixa entrar.
Quero penetrar no teu interior
olhar em volta,
te aspirar como o ar.
- Vai embora - diz a pedra. -
Sou hermeticamente fechada.
Mesmo partida em pedaços
seremos hermeticamente fechadas.
Mesmo reduzidas a pó
não deixaremos ninguém entrar.
Bato à porta da pedra.
- Sou eu, me deixa entrar.
Venho por curiosidade pura.
A vida é minha ocasião única.
Pretendo percorrer teu palácio
e depois visitar ainda a folha e a gota d'água.
Pouco tempo tenho para tudo isso.
Minha mortalidade devia te comover.
- Sou de pedra - diz a pedra -
e forçosamente devo manter a seriedade
Vai embora.
Não tenho o músculo do riso.
Bato à porta da pedra.
- Sou eu, me deixa entrar.
Soube que há em ti grandes salas vazias,
nunca vistas, inutilmente belas,
surdas, sem ecos de quaisquer passos.
Admite que mesmo tu sabes pouco disso.
- Salas grandes e vazias - diz a pedra -
mas nelas não há lugar.
Belas, talvez, mas para além do gosto
dos teus pobres sentidos.
Podes me reconhecer, nunca me conhecer.
Com toda a minha superfície me volto para ti
mas com todo o meu interior permaneço de costas.
Bato à porta da pedra.
- Sou eu, me deixa entrar.
Não busco em ti refúgio eterno.
Não sou infeliz.
Não sou uma sem-teto.
O meu mundo merece retorno.
Entro e saio de mãos vazias.
E para provar que de fato estive presente,
não apresentarei senão palavras,
a que ninguém dará crédito.
- Não vais entrar - diz a pedra. -
Te falta o sentido da participação.
Nenhum sentido te substitui o sentido da participação.
Mesmo a vista aguçada até a onividência
de nada te adianta sem o sentido da participação.
Não vais entrar, mal tens ideia desse sentido,
mal tens o seu germe, a sua concepção.
Bato à porta da pedra.
- Sou eu, me deixa entrar.
Não posso esperar dois mil séculos
para estar sob o teu teto.
- Se não me acreditas - diz a pedra -
fala com a folha, ela dirá o mesmo que eu.
Com a gota d'água, ela dirá o mesmo que a folha.
Por fim pergunta ao cabelo da tua própria cabeça.
O riso se expande em mim, o riso, um riso enorme,
eu que não sei rir.
Bato à porta da pedra.
- Sou eu, me deixa entrar.
- Não tenho porta - diz a pedra."
(Wyslawa Szymborska, Poemas. São Paulo, Companhia das Letras, 2011: 33-35).
Senhoras e senhores, uma coisa é certa: eu hoje daria tudo para ser esta pedra!
Pois eu posso dizer que no espaço dos 325 mil km que nos separaram do 2005 YU55 precisamente às 21h28 (horário de Brasília) faltou mesmo foi lirismo (http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/1003781-em-rara-aproximacao-asteroide-passa-a-300-mil-km-da-terra-diz-nasa.shtml). Isso mesmo! Faltou poesia, versinhos, sonetos, operetas ou cantigas de ninar que falem de um asteróide esférico, cor de carvão, pobre fragmento errante que viaja só desde a formação do Sistema Solar há cerca de 4,5 bilhões de anos (http://oglobo.globo.com/ciencia/mat/2011/11/08/asteroide-passa-de-raspao-pela-terra-pouco-mais-de-325-mil-km-h-925766185.asp).
É muita solidão para um pequenino astro. Estava então prestes a imaginar um diálogo enternecido com o pobre 2005 YU55, quando uma coletânea de poemas de Wislawa Szymborska me cai no colo (obra do acaso quântico escondido na poeira do asteróide? Talvez). O problema é que alguém muito mais genial do que eu - a autora em questão - já tinha imaginado um diálogo com uma pedra. Neste diálogo entre uma poeta curiosa e um pedra durona, o desfecho é surpreendente.
O poema é o seguinte:
"Conversa com a Pedra
Bato à porta da pedra.
- Sou eu, me deixa entrar.
Quero penetrar no teu interior
olhar em volta,
te aspirar como o ar.
- Vai embora - diz a pedra. -
Sou hermeticamente fechada.
Mesmo partida em pedaços
seremos hermeticamente fechadas.
Mesmo reduzidas a pó
não deixaremos ninguém entrar.
Bato à porta da pedra.
- Sou eu, me deixa entrar.
Venho por curiosidade pura.
A vida é minha ocasião única.
Pretendo percorrer teu palácio
e depois visitar ainda a folha e a gota d'água.
Pouco tempo tenho para tudo isso.
Minha mortalidade devia te comover.
- Sou de pedra - diz a pedra -
e forçosamente devo manter a seriedade
Vai embora.
Não tenho o músculo do riso.
Bato à porta da pedra.
- Sou eu, me deixa entrar.
Soube que há em ti grandes salas vazias,
nunca vistas, inutilmente belas,
surdas, sem ecos de quaisquer passos.
Admite que mesmo tu sabes pouco disso.
- Salas grandes e vazias - diz a pedra -
mas nelas não há lugar.
Belas, talvez, mas para além do gosto
dos teus pobres sentidos.
Podes me reconhecer, nunca me conhecer.
Com toda a minha superfície me volto para ti
mas com todo o meu interior permaneço de costas.
Bato à porta da pedra.
- Sou eu, me deixa entrar.
Não busco em ti refúgio eterno.
Não sou infeliz.
Não sou uma sem-teto.
O meu mundo merece retorno.
Entro e saio de mãos vazias.
E para provar que de fato estive presente,
não apresentarei senão palavras,
a que ninguém dará crédito.
- Não vais entrar - diz a pedra. -
Te falta o sentido da participação.
Nenhum sentido te substitui o sentido da participação.
Mesmo a vista aguçada até a onividência
de nada te adianta sem o sentido da participação.
Não vais entrar, mal tens ideia desse sentido,
mal tens o seu germe, a sua concepção.
Bato à porta da pedra.
- Sou eu, me deixa entrar.
Não posso esperar dois mil séculos
para estar sob o teu teto.
- Se não me acreditas - diz a pedra -
fala com a folha, ela dirá o mesmo que eu.
Com a gota d'água, ela dirá o mesmo que a folha.
Por fim pergunta ao cabelo da tua própria cabeça.
O riso se expande em mim, o riso, um riso enorme,
eu que não sei rir.
Bato à porta da pedra.
- Sou eu, me deixa entrar.
- Não tenho porta - diz a pedra."
(Wyslawa Szymborska, Poemas. São Paulo, Companhia das Letras, 2011: 33-35).
Senhoras e senhores, uma coisa é certa: eu hoje daria tudo para ser esta pedra!
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