De acordo com a cobertura da imprensa online do nosso país, este deve ter sido o Carnaval que mais acumulou recordes na história deste país.
Logo de partida, notícia publicada no jornal O Globo online dá fé daquilo que eu consideraria uma tentativa deliberada de nossos parlamentares entrarem para o Guinness Book of Records.
O suposto recorde - pasmem! - diz respeito ao número de dias considerados oficialmente como parte do feriado do Carnaval: "Enquanto o carnaval na Bahia, oficialmente, durou sete dias (do dia 12
de fevereiro ao dia 18), na Câmara dos Deputados ele ficou maior, e vai
até a próxima segunda-feira, dia 23" (http://oglobo.globo.com/brasil/carnaval-do-congresso-mais-longo-do-que-da-bahia-15377649).
Note-se que este não é o único recorde digno de menção lá na Câmara dos Deputados. Para a aprovação de requerimento coibindo a realização de plenárias entre os dias 18 e 20 de fevereiro, a Câmara contou, no dia 10 do mesmo mês, com a votação de 342 dos 513 deputados - este, sim, um recorde digno de menção em um país onde nada começa a funcionar antes do Carnaval.
Fora isso, as estradas mineiras também acumularam um recorde notável: houve "apenas" 50 mortos e 1.786 feridos em um total de 2.785 acidentes nas estradas federais do estado de Minas Gerais. Não, não é ironia: estes números fazem do Carnaval de 2015 "o menos letal dos últimos oito anos", de acordo com notícia publicada no jornal Hoje em Dia online (http://www.hojeemdia.com.br/noticias/carnaval-de-2015-teve-menor-numero-de-mortos-nas-estradas-dos-ultimos-8-anos-1.300227).
Por fim, o recorde dos recordes deste carnaval foi o da incoerência. Tudo porque o desfile da escola de samba campeã do carnaval do Rio de Janeiro, a Beija-Flor, teria sido financiado pelo dinheiro sujo proveniente do ditador da Guiné Equatorial, fato este amplamente alardeado (e condenado) nos jornais e nas redes sociais (http://oglobo.globo.com/rio/carnaval/2015/estudo-da-fgv-mostra-que-titulo-da-beija-flor-repercutiu-negativamente-nas-redes-sociais-15385369).
No entanto, como bem lembrou o intérprete Neguinho da Beija Flor, "se temos hoje o maior espetáculo do planeta, agradeça à contravenção" (http://alalao.blogfolha.uol.com.br/2015/02/19/dinheiro-sujo-tornou-o-carnaval-um-espetaculo-diz-neguinho-da-beija-flor/).
Gente boa deste país, sejamos coerentes com nossas opções: não é de hoje que o crime financia o "maior show da Terra", como alega o célebre samba-enredo. Porém, contrariamente ao Neguinho da Beija, que enaltece o dinheiro escuso, sinto muito, mas minha posição é outra: não há o que agradecer; só há o que lamentar.
A autora criou esse blog para divagar sobre o que lê diariamente nos jornais, com foco principalmente (mas não exclusivamente) na cobertura diária de ciência. Suas principais armas são a ironia de inspiração machadiana e um computador bacaninha (ela tirou o escorpião do bolso e comprou um de verdade). Ao citar alguma passagem, por favor, dê créditos para a autora: até para as grandes bobagens o direito autoral é inalienável.
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
A cruz e a caldeirinha
Agora acabei de crer que aquela conversa de alinhamento da Terra com o seu sol e Alcione, aquela estrela/buraco negro situada no centro da nossa galáxia, só pode ser verdade!
As manchetes dos jornais não me deixam mentir: o calor grassa pelo país afora tal qual fogo na palha. E tudo indica que a metáfora será cada vez menos metafórica e mais literal se algo não for feito na esfera celeste: o calor bate recorde por todos os lados nesse país.
Aqui na Roça Grande, por exemplo, estamos sofrendo o mês de dezembro mais seco dos últimos 37 anos: "Neste mês, choveu o equivalente a 70,1 milímetros na região metropolitana de Belo Horizonte, apenas 24% do esperado para dezembro, cuja média histórica é de 319 milímetros" (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1206599-belo-horizonte-mg-tem-dezembro-mais-seco-dos-ultimos-37-anos.shtml).
Os jornais falam de uma massa quente que não larga do nosso pé: a estiagem prolongada "é causada pela atuação de uma massa de ar quente que dificulta a formação de nuvens sobre a capital mineira e bloqueia a chegada de frentes frias vindas do Sul do país, além de ser influenciada pelo fenômeno El Niño", explica matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo online.
Com isso, estamos esperimentando temperaturas 4ºC mais elevadas do que a temperatura média máxima para esta época do ano, que fica em torno de 28ºC. Mas tenho certeza de que tem o dedo de Alcione aí no meio: a coisa anda tão feia que o Rio de Janeiro registrou hoje, 4a feira, o dia mais quentte em 97 anos: "Em Santa Cruz (um dos bairros mais afastados do centro), na zona oeste, os termômetros marcaram 43,2ºC".
Tudo indica que a atual cruz de quem mora em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio, é o calor: com a anuência e colaboração enfática de Alcione, "com a elevada umidade do ar e o vento quente que sopra vindo do norte, a sensação térmica foi ainda maior: 47ºC" naquele bairro. O que fez de lá um estranho parodoxo: Santa Cruz foi hoje a própria filial do inferno na cidade do Rio de Janeiro.
Ao contrário do Rio, a temperatura máxima na cidade de São Paulo foi medida na Zona Leste: "Segundo o CGE (Centro de Gerenciamento de Emergência), a maior temperatura foi de 32,7ºC, na Penha, zona leste, por volta das 14h" (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1206732-sao-paulo-tem-maxima-de-327c-na-tarde-desta-quarta-feira.shtml). "Na média, a capital paulista teve 30,7ºC", índice considerado elevado para aquela cidade.
Trocando em miúdos: enquanto a secura paira por todos os lados na Roça Grande, o El Niño não deixa nenhuma frente fria subir do Sul; sem alternativa, São Paulo frita à leste, ao passo que o Rio ferve mesmo é à oeste. E no centro da Galáxia, lá está Alcione, rindo de tudo e de todos.
Simplesmente não temos para onde correr: se correr, o bicho pega; e se ficar: o bicho morre assado!
As manchetes dos jornais não me deixam mentir: o calor grassa pelo país afora tal qual fogo na palha. E tudo indica que a metáfora será cada vez menos metafórica e mais literal se algo não for feito na esfera celeste: o calor bate recorde por todos os lados nesse país.
Aqui na Roça Grande, por exemplo, estamos sofrendo o mês de dezembro mais seco dos últimos 37 anos: "Neste mês, choveu o equivalente a 70,1 milímetros na região metropolitana de Belo Horizonte, apenas 24% do esperado para dezembro, cuja média histórica é de 319 milímetros" (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1206599-belo-horizonte-mg-tem-dezembro-mais-seco-dos-ultimos-37-anos.shtml).
Os jornais falam de uma massa quente que não larga do nosso pé: a estiagem prolongada "é causada pela atuação de uma massa de ar quente que dificulta a formação de nuvens sobre a capital mineira e bloqueia a chegada de frentes frias vindas do Sul do país, além de ser influenciada pelo fenômeno El Niño", explica matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo online.
Com isso, estamos esperimentando temperaturas 4ºC mais elevadas do que a temperatura média máxima para esta época do ano, que fica em torno de 28ºC. Mas tenho certeza de que tem o dedo de Alcione aí no meio: a coisa anda tão feia que o Rio de Janeiro registrou hoje, 4a feira, o dia mais quentte em 97 anos: "Em Santa Cruz (um dos bairros mais afastados do centro), na zona oeste, os termômetros marcaram 43,2ºC".
Tudo indica que a atual cruz de quem mora em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio, é o calor: com a anuência e colaboração enfática de Alcione, "com a elevada umidade do ar e o vento quente que sopra vindo do norte, a sensação térmica foi ainda maior: 47ºC" naquele bairro. O que fez de lá um estranho parodoxo: Santa Cruz foi hoje a própria filial do inferno na cidade do Rio de Janeiro.
Ao contrário do Rio, a temperatura máxima na cidade de São Paulo foi medida na Zona Leste: "Segundo o CGE (Centro de Gerenciamento de Emergência), a maior temperatura foi de 32,7ºC, na Penha, zona leste, por volta das 14h" (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1206732-sao-paulo-tem-maxima-de-327c-na-tarde-desta-quarta-feira.shtml). "Na média, a capital paulista teve 30,7ºC", índice considerado elevado para aquela cidade.
Trocando em miúdos: enquanto a secura paira por todos os lados na Roça Grande, o El Niño não deixa nenhuma frente fria subir do Sul; sem alternativa, São Paulo frita à leste, ao passo que o Rio ferve mesmo é à oeste. E no centro da Galáxia, lá está Alcione, rindo de tudo e de todos.
Simplesmente não temos para onde correr: se correr, o bicho pega; e se ficar: o bicho morre assado!
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Antes que o dia acabe!
Só para não perder o hábito do comentário diário!
Aqui vai uma palavrinha de última hora (e último minuto) sobre a greve dos bombeiros no Estado do Rio de Janeiro. No momento em que as autoridades daquele estado arrancam os pelinhos da cabeça com os atos de insubordinação do proletariado de farda vermelha, matéria da Folha Online expõe as discrepâncias do piso salarial entre os diversos estados (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/926235-bombeiros-do-pr-ba-mg-e-pe-ganham-o-dobro-do-que-os-do-rj.shtml).
Enquanto um bombeiro em início de carreira ganha, no Rio, o equivalente a R$950, seus comparsas de outros estados esbanjam os contra-cheques: R$ 1.948,23 para os da Bahia, R$ 2.041,74 para os de Minas e R$ 2.428,39 para os paranaenses.
Só que reivindicações salariais são como o vulcão Puyehue do Chile: mesmo quando entram em atividade num lugar, elas acabam também causando transtornos em outras paragens (http://www1.folha.uol.com.br/mundo/926221-cinzas-de-vulcao-ainda-causam-transtornos-no-sul-da-argentina.shtml). Assim como atividade do vulcão naquele país tem trazido consequências desastrosas para o turismo da vizinha Argentina, com cancelamento de vôos para Bariloche e outras cidades turísticas, as manifestações dos bombeiros no Rio acionaram a sirene de alerta da classe em outros estados como Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul, que prometem novas assembléias nos próximos dias.
Fica claro também que quando as desigualdades salariais ficam patentes a tal ponto, dar voz de prisão aos manifestantes é o mesmo que querer reter a erupção de um vulcão com uma rolha gigante. E mesmo se um artefato desses (uma rolha anti-erupção) existisse de fato, seu efeito seria totalmente inócuo: as cinzas serão expelidas com pressão igual ou até mesmo maior àquela empregada na repressão.
Portanto, autoridades do estado do Rio de Janeiro, muita atenção: a medida que as manifestações ganharem corpo nos demais estados, vai ser ainda mais difícil punir a insubordinação apenas com estalo do chicote. O certo é que, quando a lava rolar de verdade, não vai ter um só bombeiro na ativa querendo apagar esse fogo!
Aqui vai uma palavrinha de última hora (e último minuto) sobre a greve dos bombeiros no Estado do Rio de Janeiro. No momento em que as autoridades daquele estado arrancam os pelinhos da cabeça com os atos de insubordinação do proletariado de farda vermelha, matéria da Folha Online expõe as discrepâncias do piso salarial entre os diversos estados (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/926235-bombeiros-do-pr-ba-mg-e-pe-ganham-o-dobro-do-que-os-do-rj.shtml).
Enquanto um bombeiro em início de carreira ganha, no Rio, o equivalente a R$950, seus comparsas de outros estados esbanjam os contra-cheques: R$ 1.948,23 para os da Bahia, R$ 2.041,74 para os de Minas e R$ 2.428,39 para os paranaenses.
Só que reivindicações salariais são como o vulcão Puyehue do Chile: mesmo quando entram em atividade num lugar, elas acabam também causando transtornos em outras paragens (http://www1.folha.uol.com.br/mundo/926221-cinzas-de-vulcao-ainda-causam-transtornos-no-sul-da-argentina.shtml). Assim como atividade do vulcão naquele país tem trazido consequências desastrosas para o turismo da vizinha Argentina, com cancelamento de vôos para Bariloche e outras cidades turísticas, as manifestações dos bombeiros no Rio acionaram a sirene de alerta da classe em outros estados como Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul, que prometem novas assembléias nos próximos dias.
Fica claro também que quando as desigualdades salariais ficam patentes a tal ponto, dar voz de prisão aos manifestantes é o mesmo que querer reter a erupção de um vulcão com uma rolha gigante. E mesmo se um artefato desses (uma rolha anti-erupção) existisse de fato, seu efeito seria totalmente inócuo: as cinzas serão expelidas com pressão igual ou até mesmo maior àquela empregada na repressão.
Portanto, autoridades do estado do Rio de Janeiro, muita atenção: a medida que as manifestações ganharem corpo nos demais estados, vai ser ainda mais difícil punir a insubordinação apenas com estalo do chicote. O certo é que, quando a lava rolar de verdade, não vai ter um só bombeiro na ativa querendo apagar esse fogo!
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