UA-89169382-1 Crônicas de Juvenal: blog
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domingo, 1 de fevereiro de 2015

Diário de Bordo






Após longo e proveitoso verão antártico, eis-me aqui de volta ao meu próprio blog.

A bem da verdade, esta postagem chega com quase dois meses de atraso. Ela deveria ter precedido e justificado a minha ausência, deixando o hiato narrativo menos dramático do que ele foi, na realidade.

Já vou adiantando que minha ausência prolongada não se deveu à falta de empenho ou dedicação à escrita propriamente dita. Ao contrário: durante esta fase de silêncio compulsório, estive ativa e diretamente envolvida com a redação diária em outro blog - o MycoProjector - relatando o dia a dia da equipe científica do projeto de pesquisa "MycoAntar: diversidade e bioprospecção de fungos na Antártica".

Também não vou me alongar aqui no relato do outro trabalho. Deixo apenas o link para quem tiver interesse nesta experiência que, até onde eu sei, é inédita na pesquisa científica brasileira na Antártica: a seção se chama "Diário de Bordo" (http://mycoprojector.com.br/category/diario-de-bordo/) e teve postagens diárias durante quase três meses de missão, incluindo as minhas próprias e as da bolsista do projeto, Luiza Carvalho.

Blogagens "profissionais" à parte, pretendo retornar ao trelelê diário, despretensioso, mas nem por isso menos prazeroso. Sou grata a essa prática diária, descompromissada. É ela quem me preparou para os saltos mais importantes.

Vida longa, portanto, às Crônicas de Juvenal.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Brandura e lentidão

Ok, eu sei que este blog deveria mudar de nome e se chamar "Crônicas enferrujadas de Juvenal"; ou então: "Crônicas das teias de aranha que cresceram por mero abandono". Mas muito pior do que ficar tempos sem escrever no próprio blog é não escrever em blog nenhum, o que, aliás, não tem sido o caso.

Apesar de ocupada com blogs que não são do Juvenal, nunca deixei de sofrer com a falta que tem me feito passar por aqui para contar as lorotas de sempre. Mas esta vida anda tão corrida e minha conexão à Internet, tão pífia, que desanimo antes mesmo de começar. Shame on me! O exemplo tem de ser dado dentro de casa. Sei bem disso...

Para expurgar uma parte da minha culpa, vou deixar de lamentar a inexorável marcha do tempo e partir para a celebração das contra-tendências,  que é uma forma educativa de me autodisciplinar e evitar a vitimização. Sim, leitor amigo, você mesmo que resolveu passar por aqui, apesar dos pesares: nem tudo neste mundo é marcha corrida adiante. Ainda há quem avance em brandura e lentidão.

Para celebrar a contra-tendência acima citada, nada melhor do que a notícia publicada hoje no jornal O Globo online: graças a mutações genéticas ocorridas nos últimos vinte anos, "o vírus HIV está se tornando cada vez mais brando e demorando para causar a doença conhecida como Aids" (http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/virus-hiv-esta-cada-vez-mais-brando-lento-para-causar-aids-14714562).

A contra-tendência, que foi identificada em estudo de pesquisadores da Universidade de Oxford e publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. A brandura e lentidão do vírus da AIDS é atribuída à ação do sistema imunológico eficiente de uma vítima infectada. Esta ação estaria limitando em parte a capacidade do vírus replicar, fazendo "com que o vírus fique menos infeccioso, e demorando cada vez mais para causar Aids". É válido ressaltar que "drogas produzidas para retardar ou administrar o início da doença também tiveram papel fundamental na mutação."

Então, para encerrar este breve comentário sobre a falsa desculpa de que o tempo está passando rápido demais e de que não me sobra mais tempo para escrever, lanço aqui o meu clamor aos quatro ventos: uma droga produzida para retardar ou administrar as desculpas esfarrapadas, com capacidade de redução de sua replicação, em todo tempo e local, sem exceções, mas, sobretudo, no âmbito deste blog.

Que assim seja! 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Es-pi-o-na-gem!

Senhoras e senhores, bem-vindos à mais nova reedição da Guerra Fria. Sim, podem passar, é por aqui mesmo. À direita, temos um guarda-volumes. Queiram deixar aí seus pertences mais valiosos: carteira, joias, reloginho do Mickey (com ou sem grife), seu diploma, seu orgulho e, claro, sua dignidade. Aqui, no País das Mil e Uma Plásticas, não carece levar tanta coisa na bolsa, mesmo porque a chance de ficar sem bolsa é grande.

Queiram passar mais adiante, por favor, no detector de espiões. Se apitar, é porque as empresas de telecomunicações sediadas no Brasil permitiram. Isso mesmo: eis o "bafão" do dia, da semana, quiçá do mês: segundo reportagem publicada ontem no jornal O Globo online, a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA) e Agência Central de Inteligência (CIA) do mesmo país contaram com a cooperação de empresas de telecomunicações do Brasil para espionarem milhões de telefonemas e correspondências eletrônicas trocados por brasileiros e por pessoas em trânsito no Brasil (http://oglobo.globo.com/mundo/nsa-cia-mantiveram-em-brasilia-equipe-para-coleta-de-dados-filtrados-de-satelite-8949723).

Tiro para lá de mal dado, este descalabro de monitoramento só nos fez ter mais apreço pelo seu responsável, o ex-agente da CIA e persona non grata Edward Snowden. Além de ser o dedo-duro da vez (revertendo o feitiço contra seu feiticeiro), Snowden conseguiu algo raro: fazer com que nós, brasileiros, olhemos a vizinha Venezuela com olhinhos de cobiça: afinal, por que eles e não nós, brasileiros, oferecemos asilo político ao mais novo herói mundial? A pergunta, acreditem, já começou a ser encampada por alguns dos nossos mais caros senadores (http://oglobo.globo.com/mundo/senadores-defendem-que-brasil-conceda-asilo-edward-snowden-8962251).

O mais engraçado é imaginar o trabalhão que terão os EUA para monitorar todos aqueles que comentarem suas ações de espionagem daqui por diante: se já eram milhões de emails e telefonemas, imagine agora, que a artimanha caiu na boca do povo?

A notícia é tão lastimável que, do ponto de vista prática, só nos resta lamentar o fato de continuarmos sendo quintal de superpotência e, colateralmente, tentar levar alguma vantagem nesta história. No caso de um blog como este que vocês lêem, que tem tentado funcionar muito capengamente durante as horas diurnas, ainda há alguma esperança de se capitalizar com a atenção alcançada. Assim sendo, escreverei a palavra "espionagem" repetidamente nos meus comentários diários, de preferência com letras garrafais, para que algum motor de busca passeie pelo meu blog. Pelo menos, o esforço de vigilância vai ser servir para alimentar as estatísticas de visita do blog e, com isto, aumentar as chances de converter a indiscrição alheia em ganhos com publicidade visualizada.

Enfim... hora de dormir. Motores de busca da CIA são, seguramente, mais notívagos do que eu.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Identidades roubadas

Alguém aí lembra uns dias atrás todo a celeuma criada em torno de uma suposta blogueira lésbica síria - Amina Abdallah - que teria sido também supostamente sequestrada por criticar o presidente Bashar al-Assad? Não? Então nem precisa lembrar! Mesmo porque ela não existe. Isso mesmo: ela foi a criação literário-ficcional de uma estudante americano de 40 anos, Tom MacMaster (http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2011/06/13/estudante-americano-assume-autoria-de-blogueira-gay-siria-que-teria-sido-sequestrada-924669270.asp).

Bem, todos sabemos que usar pseudôminos é coisa mais velha do que andar para frente. Assim fez Tomás Antônio Gonzaga com as os poemos satíricos Cartas Chilenas, numa estratégia deliberada para criticar o então governador de Minas Gerais, Luís da Cunha Menezes. A lista de adeptos de pseudônimos é extensa e nela entram outros nomes famosos como Emily Dickinson, Fernando Pessoa e até o grande mestre (salve, salve!) Machado de Assis. Até Cazuza já usou o Codinome Beija-flor em prosa e verso. O grande problema, a meu ver, da farsa identitária idealizada pelo americano mitômano não está no uso do pseudômino em si, mas em outros deslizes éticos que ele andou cometendo.

Em primeiro lugar, o blogueiro disfarçado de lésbica andou roubando a foto de uma mulher britânica para utilizá-la em seu blog, obviamente sem o consentimento da mesma (!!!!!). Desse deslize, ele se defende dizendo que já pediu desculpas.

Em segundo lugar, vem o argumento utilizado para justificar a utilização de uma identidade forjada. A matéria do O Globo transcreve o depoimento dado pelo blogueiro à BBC da seguinte forma: "Há alguns anos, em discussões sobre o Oriente Médio nos EUA, eu reparava que sempre que eu apresentava a minha opinião, alguém reagia, perguntando por que eu era antiamericano ou antisemita. Então, eu inventei essa personagem, para que as pessoas parassem de se importar com o interlocutor e começassem a prestar atenção nos fatos em si".

Se levarmos a sério o argumento, entenderemos que a idealização da identidade em questão - uma militante lésbica, crítica de um regime autoritário - foi utilizada como um subterfúgio para defender das possíveis críticas às suas posições. Aí, vocês poderiam dizer que até aqui a estratégia do blogueiro em nada difere daquela adotada nas Cartas Chilenas. E eu diria que sim, com uma única ressalva: Tomás Antônio Gonzaga o fez num contexto de dominação política em que a crítica era punida com a morte; o senhor MacMaster o fez com medo de responder pelo teor das suas próprias posições em um país laico e democrático (bem, pelo menos em princípio...). Entre um exemplo e outro, existe, portanto, duas diferenças básicas: o sistema político em voga em cada contexto e a responsabilidade assumida pelo autor pelos próprios atos. Essas duas "pequenas" diferenças separam um herói de um impostor.

Mas o mais grotesco mesmo dessa estratégia deliberada de querer se passar pelo que não é reside na dimensão ética dessa "adoção" identitária : utilizar da vulnerabilidade de uma determinada identidade em um dado contexto sócio-político - ser mulher e lésbica em um país muçulmano - para se promover. Pior, MacMaster quis vitimizar essa posição "subalterna" - já que uma suposta "prima" da falsa blogueira havia publicado um comentário no blog, dizendo que Amina havia sido sequestrada por seguranças do presidente Assad - para promover as suas próprias ideias acerca do regime sírio.

Moral da história: o que está a prêmio agora não é a cabeça da blogueira lésbica, mas a do próprio MacMaster, que desagradou profundamente os verdadeiros ativistas e blogueiros pró-direitos humanos sírios. O depoimento a seguir é atribuído a Sami Hamwi, ele próprio adepto de um pseudônimo e editor do site GayMiddleEast.com: "Os blogueiros na Síria estão tentando divulgar ao máximo o que está acontecendo no país. Temos que lidar com problemas muito maiores do que você (MacMaster) pode imaginar. Você nos prejudicou, colocou a vida de nós (ativistas) em perigo e nos deixou receosos em relação à nossa própria causa". É... Tem doido e mau-caráter para tudo neste mundo...

segunda-feira, 21 de março de 2011

O blog da Dona Maria

Se tem uma coisa que me dá preguiça nessa vida é falso heroísmo. O blog orçado em R$ 1,35 milhão da Sra. Maria Bethânia, diva da MPB pela qual tenho (ou tinha até bem pouco tempo) o maior apreço, vem sendo um exemplo clássico disso (http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/890568-projeto-aprovado-pelo-minc-preve-r-600-mil-so-para-bethania.shtml). No projeto original, a justificativa para existência do seu blog de poesia rezava que "em meio a tantos absurdos do mundo moderno, a tantos problemas que cercam a vida de todos, nos propomos a revolucionar a vida cotidiana de cada um".

Em meio a tantos absurdos do mundo moderno, eis aqui mais um: a Dona Maria (Bethânia) arroja-se o direito de reivindicar um cachê de R$ 600 mil pela direção artística do projeto (o que equivale a um salário de R$ 50 mil durante o período de um ano), atividade esta que inclui: "direção artística, pesquisa e seleção de textos e atuação em vídeos". O que significa que seu cachê seria superior aos 467 mil previstos na produção dos próprios vídeos.

Já a Sra. Ana de Hollanda, atual ministra da Cultura, acredita não existir nada de errado no direito de captar tais recursos via política de renúncia fiscal (http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/891168-em-brasilia-ana-de-hollanda-minimiza-polemica-envolvendo-bethania.shtml). Nos dizeres da Ministra - que acha que "todos têm que tentar [aprovar seus projetos]. Se vão captar, é outra coisa" - o valor exorbitante de R$ 1,35 milhão não tem nada demais. Aliás, a defesa saiu pior do que qualquer soneto: ficou parecendo que as coisas foram resolvidas num café na cozinha dos Veloso com os de Hollanda, bem ao gosto das práticas de favorecimento da Casa Grande. Péssimo, péssimo, péssimo!

Mas convenhamos: é bem verdade que, conforme afirmou nossa ministra da Cultura, a aprovação para captação não signifca arrecadação efetiva. Eu mesma tenho uma amiga que comemorou com lágrimas nos olhos a aprovação de um projeto de R$ 250 mil para uma série de espetáculos de sua troupe de artistas. Mas meses depois ela não tinha conseguido captar nem dois pirulitos para a execução do seus espetáculos. É que os empresários andaram fechando as bolsas naquele custoso ano de PIB negativo que foi 2009.

Mas é aí que a aprovação de uma alta remuneração para uma artista de peso como a Dona Bethânia faz toda a diferença. Afinal, quem tem mais chances de captar recursos junto às grandes empresas: Dona Bethânia ou um simpático grupo de teatro de bonecos de BH? Advinhem!

A respeito do tal blog, tenho algumas pontuações a fazer: 1) adoraria ver a Dona Bethânia recitar na web; 2) acho que a poesia tem potencial revolucionário; 3) contudo, entretanto, porém... não com a grana retirada da renúncia fiscal. Isto é, não com aquela grana que poderia estar saindo das empresas devedoras de impostos e sendo potencialmente revertida em outra prioridades: inclusive em cultura, de forma mais honesta e mais democrática.

Cá pra nós: R$ 50 mil mensais para uma atividade que não é, nem será a única da artista em questão? Do meu bolso, não, criatura! Estamos falando de um país cujo salário mínimo é de R$ 545. E a dona Bethânia ainda manteve a discreta postura de não se pronunciar sobre o caso. Melhor mesmo. Aliás, nem sei! O que seria mais revolucionário: justificar publicamente uma descompostura dessas ou ficar quieta no seu canto? Se ela falasse, haveria mais sonetos mal-remendados, com certeza.