UA-89169382-1 Crônicas de Juvenal: genética
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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Raridade

Ah, mutações genéticas! Elas acontecem o tempo todo, mas quando o acaso ajuda, sai de baixo!

Esse parece ser o caso do pequeno povoado de Araras, um distrito que fica a 40 km da cidade de Faina, no estado de Goiás. Araras é conhecida por um recorde mundial: "O povoado é recordista mundial na prevalência do xeroderma – uma para cada 30 pessoas. No mundo, a doença afeta uma para cada 250 mil". 

O xeroderma pigmentoso é descrito como uma extrema sensibilidade ao sol, a tal ponto que as células da pele acabam sofrendo mutações provocadas pela radiação UV. O resultado disso é sentido na pele (literalmente) pelos habitantes de Araras: "O acúmulo delas causa manchas, escurecimento, engrossamento da pele e aumenta mais de mil vezes a chance do aparecimento de vários tipos de câncer."

Com uma taxa de incidência dessa monta, Araras não poderia jamais passar despercebida dos geneticistas interessados em mutações humanas de toda espécie. Segundo Carlos Menck, professor titular da USP e especialista no reparo de DNA, as mutações de Araras são fruto do que ele chama de "azar dos azares": "o encontro geográfico de duas famílias não correlacionadas, que fundaram o povoado, cada uma carregando uma cópia alterada de um gene."

Em consequência disso, os ararenses devem "evitar ao máximo a exposição ao sol e utilizar um potente filtro solar com uma enzima reparadora de DNA." Devem também, na medida do possível, vencer o isolamento geográfico e procurar consortes em outra freguesia, evitando assim casamentos consanguíneos. 

Bem, se irão buscar isso ou não, já é outra história. Mas fato é que Araras tem hoje motivos para acreditar que está melhor do que no passado, mesmo diante da fatalidade de uma doença considerada raríssima. É que até bem recentemente, "muitas pessoas achavam que a doença era contagiosa e que seria fruto de doenças venéreas, como sífilis, de seus antepassados". A Genética, contudo, provou que não.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Sangue ilegal

Aos que advogam pela popularização da ciência, não custa lembrar: lembrar os erros e abusos da ciência é uma missão moral. Afinal, se não nos lembrarmos das derrapadas passadas, como iremos corrigi-las no presente?

Um exemplo disso são as devoluções de amostras de sangue de povos Ianomâmis, coletadas ilegalmente por instituições de pesquisa norte-americanas nos idos dos anos 1960. Essas devoluções vem sendo mediadas pelo nosso Ministério Público Federal, que vem mediando a devolução "aos índios ianomâmis, nesta segunda-feira (21), [de] 474 amostras de sangue coletadas por cientistas norte-americanos sem consentimento dos índios e sem autorização brasileira, em 1967".

A querela com as instituições de pesquisa norte-americanas começou com a publicação do livro "Trevas no Eldorado", pelo jornalista norte-americano, Patrick Tierney, em 2000. Tierney acusou o geneticista James Neel e o antropólogo Napoleon Chagnon de recolherem, sem consentimento, milhares de amostras de sangue ianomâmi no Brasil e na Venezuela.

Desde então, o Ministério Público Federal vem mapeando, "por meio de uma articulação entre sua Secretaria de Cooperação Internacional e o Itamaraty", a localização das "amostras recolhidas ilegalmente e negociar, extrajudicialmente, com as instituições nos Estados Unidos". Dentre as portadoras dessas amostras, encontram-se a Universidade Estadual da Pensilvânia, o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos,  a Universidade de Ohio, a Universidade Northwestern e a Universidade da Pensilvânia. De acordo com a procuradora Deborah Duprat, "coordenadora da Câmara do MPF que atua na defesa dos povos indígenas, o Brasil 'não tem nenhuma informação' sobre que tipo de pesquisa foi ou seria feita com o sangue coletado irregularmente".

Apesar da devolução, a responsabilização dos responsáveis pelas coletas parece ser algo um tanto quanto remoto. O geneticista James Neel acabou falecendo em 2000, ano da publicação do livro-denúncia, sem sequer ter sido investigado. Quanto ao antropológo, Napoleon Chagnon, este acabou inocentado pela Associação Americana de Antropologia. Na visão da Procuradora Duprat, "como as coletas foram realizadas na década de 1960, quando não havia leis específicas, não há como punir agora os responsáveis".

A primeira remessa das amostras chegou ao Brasil em abril de 2015, vindas da Universidade Estadual da Pensilvânia. As atuais foram trazidas do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos. Todas as amostras estão sendo encaminhadas à aldeia ianomâmi localizada em Roraima, para serem enterradas. "Para a etnia, o enterro tem um importante valor simbólico", explica a notícia publicada no jornal Folha de S. Paulo. Nas palavras do líder ianomâmi, Davi Kopenawa, "a terra é nossa mãe, então, tem que devolver para ela".

A única coisa que  jamais terá devolução serão as resultados das pesquisas realizadas com amostras de sangue ilegais dos Ianomâmis. Esses aí, por sua vez, não merecem nem sequer serem lembrados.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Na rota da seda

Múmias ruivas chinesas de até 4 mil anos de idade, encontradas na Bacia do Tarim (porta de entrada da rota da seda, no oeste da China), provam que a diversidade genética local é coisa mais antiga do que se supunha.

Estudo publicado na revista BMC Genetics, que contou com a análise de DNA de 36 indivíduos encontrados no cemitério Xiaohe, identificou linhagens genéticas de pelo menos dois grupos euro-asiáticos em meios aos primeiros colonizadores daquela região. No primeiro caso, trata-se de grupos nômades provenientes de estepes do Cazaquistão. Já o segundo caso conta com grupos provenientes do oásis de Báctria, onde hoje se encontram o Uzbequistão, o Afeganistão e o Turcomenistão. "Os resultados mostraram que ambas as teorias possuem certa validade, mas as populações das estepes cazaques tiveram maior contribuição que os povos do oásis de Báctria" (http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/exames-de-dna-revelam-origens-de-mumias-ruivas-chinesas-16843220).

Nada disso poderia ser comprovado, no entanto, se a Bacia do Tarim não fosse uma região desértica, capaz de preservar material genético suficiente para comprovar as teorias relacionadas com linhas e mutações dos primeiros habitantes da região.

Contudo, para além das conclusões apontadas pelo estudo genético em questão, uma terceira hipótese corre a boca miúda, nos bastidores da ciência oficial. De acordo com ela, a rota da seda nada mais foi do que uma mera desculpa para uma outra, muito mais importante e comercialmente influente do que a primeira: a rota da henna.
No mais, Gerais. Depois dessa, melhor ir dormir.

P.S.1= Esse blog preza a ironia

P.S.2= Portanto, mantenha o bom humor.

P.S.3= Henna faz bem para o cabelo. Experimente antes de virar múmia.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Saudades da Aurora

O tema é cercado de tabus, mistérios e receios, mas nunca não deixa de mobilizar a curiosidade alheia...

Pois bem, se você morre de vontade de saber quando será a sua derradeira hora... então, de fato, chegou a sua hora - se não de passar desta para melhor, pelo menos de saber que o provável horário da sua morte está determinado geneticamente em você.

De acordo com notícia publicada no jornal O Globo online, "pesquisadores da Beth Israel Deaconess Medical Center (BIDMC), dos Estados Unidos, descobriram uma variação genética que afeta o relógio biológico do corpo humano de uma maneira que torna possível prever a hora do dia em que uma pessoa está mais propensa a morrer" (http://oglobo.globo.com/saude/gene-preve-hora-do-dia-em-que-pessoas-tendem-morrer-6770800#ixzz2CoTWD5Yy).
A notícia relata que, após analisarem o padrão de sono de 1.200 adultos saudáveis com 65 anos idade, os pesquisaadores conseguiram isolar uma molécula próxima a gene específico - o "period 1" - em grupos com comportamento de sono distintos. "Os resultados mostraram que pessoas com genótipos específicos tendem a morrer em horários também específicos, facilmente identificáveis", conclui a notícia.

Segundo o autor da pesquisa, Andrew Lim, a motivação genética para a morte estaria relacionada com o nosso relógio biológico interno, que "regula vários aspectos da biologia e do comportamento humano, tais como horários de sono preferidos, pico de desempenho cognitivo, e a duração de muitos processos fisiológicos". Dito de outra forma, significa dizer que o relógio biológico "também influencia o calendário de problemas agudos de saúde como derrame e ataque cardíaco."

Resta saber, claro, se a molécula dá uma forcinha para descobrir os horários prováveis para se morrer de de bala perdida (ou bem achada) e acidente de automóvel, isto é, de outras causas que não são geneticamente influenciadas, como o câncer e o acidente vascular cerebral.

Enfim, se esta determinação for um dia realmente possível, de uma coisa a gente já pode ter certeza: aquele sambinha vai perder totalmente a sua razão de ser: "Sei que vou morrer/ não sei a hora/ levarei saudades da Aurora".