UA-89169382-1 Crônicas de Juvenal: aquecimento global
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terça-feira, 15 de março de 2016

Outono 2016

O outono chegou!

E chegou logo hoje, 2a feira. O diagnóstico, contudo, é aberto a controvérsias. Alguns preferem afirmar que o outono ainda não chegou oficialmente; outros, por sua vez, acreditam que ele já estava aí desde a 5a feira passada. Mas isso realmente não importa.

Importa que a brisa fresca e aquele súbito arrepio no braço serão mais frequentes daqui por diante, até que alcancemos o solstício de inverno. Mas, antes de atingirmos o ponto máximo de distanciamento entre o hemisfério sul e o sol, nos despediremos dos dias quentes de verão com um breve lamento do estrago que ele andou fazendo por aqui no mês passado.

Segundo dados da Agência Espacial Americana (NASA), o houve um salto no aumento da temperatura média do mês de fevereiro, provocando um aumento muito superior ao observado nos meses anteriores. Em termos práticos, significa reconhecer que "os termômetros marcaram um avanço de 1,35 grau Celsius em relação à media do mesmo mês durante o período de base de comparação, entre 1951 e 1980".

No meio dessa barafunda, alguns tentam colocar parte da responsabilidade no fenômeno do El Niño, "que aquece as águas do Oceano Pacífico, [e] pode ter contribuído para o aumento nas temperaturas." Outros preferem culpar a emissão crescente de gases com efeito-estufa. Mas isso realmente não importa.


Importa que o lamento hoje seja tão breve quanto um arrepio no braço. O sono já bateu. Boa noite para quem fica. E deixa eu investir nos sonhos, porque o aquecimento global já é realidade.


terça-feira, 10 de novembro de 2015

Criança travessa, futuro incerto

Uma prova cabal do quanto nossa percepção nos engana é a distância existente entre a sensação térmica que experimentamos na epiderme e o aumento real da temperatura média da Terra nos últimos anos.

Se nos fiássemos na sensação de calor dos últimos dias, os termômetros teriam acusado temperaturas médias pelo menos 100 vezes mais altas do que o normal  - se é que se pode chamar as temperaturas dos últimos vinte anos de "normais".

Mas a verdade dos cálculos oficiais atestam um aumento infinitamente mais tímido do que a nossa vã filosofia. Em notícia publicada hoje no jornal O Globo online, o escritório britânico de meteorologia, Met Office, afirma que, "pela primeira vez, a temperatura média da Terra está mais de 1 grau Celsius superior à registrada antes da Revolução Industrial".

Mesmo objetivamente menor do que a sensação percebida subjetivamente, o aumento desregulado da média mundial pode colocar o planeta em risco: "De acordo com os cientistas, o aumento da temperatura média da Terra não pode chegar a 2 graus Celsius, sob o perigo de o homem perder o controle sobre o clima do planeta".


Para chegar a esta conclusão, o Met Office driblou a dificuldade de se conseguir dados objetivos das temperaturas em 1750 - período em que teve início a Revolução Industrial e, consequentemente, o uso de combustíveis fósseis - observando a média das temperaturas registradas entre 1850 e 1900, as quais "são mais conhecidas e acuradas."


Mas o rol de "notícias quentes" não para por aí. "Estima-se que, nos próximos meses, esta diferença será até superior, devido à combinação entre as emissões de carbono e o impacto do fenômeno climático El Niño." Some-se a isso o fato de que, neste ano de 2015, está se formando um El Niño de proporções inéditas, conforme declaração do diretor do Centro Hadley do Met Office, Stephen Belcher: "Um forte El Niño está se desenvolvendo no Oceano Pacífico, e ele provocará um impacto sobre a temperatura global."


Para coroar "de glória" nossa percepção sensorial do calor, parece que a coisa vai se complicar ainda mais no ano de 2016: "os cientistas acreditam que 2016 também está se configurando como um ano muito quente. É provável que nele a temperatura média da Terra também fique acima de 1 grau Celsius em relação aos índices vistos entre 1850 e 1900".


Diante das evidências apresentadas pelos climatologistas e da possibilidade de que estejamos caminhando a passos largos rumo a mudanças de grandes proporções climáticas, fica uma breve e singela lição: com o El Niño não se brinca; nem muito menos com os efeitos dos gases-estufa.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Ponto de viragem 2

E lá se vai mais uma semana de lascar a chapoquinha... Quanta coisa aconteceu! Entre terremotos e furacões, foi também a semana em que limites foram transpostos e recordes foram superados.

Lembram do ponto crítico de emissão de CO2 que, uma vez atingido, tornaria inevitável uma elevação de 2ºC a 3ºC na temperatura média do planeta? (http://cronicasdejuvenal.blogspot.com.br/2013/04/ponto-de-viragem.html). Pois é... Agora é tarde! O ponto crítico foi atingido. E uma vez atingido, não há como se voltar atrás.

A constatação de que atingimos, de fato, a marca símbolo de 400 partes por um milhão (ppm) de dióxido de carbono na atmosfera - atingindo o chamado "ponto de viragem irreversível" - não é exatamente inédita do ponto de vista científico. "Embora tal nível já tenha sido atingido no ano passado durante o verão no Ártico, desta vez a medição vem de uma estação de monitoramento no topo da montanha Mauna Loa, no Havaí, que funciona desde 1958" (http://oglobo.globo.com/ciencia/nivel-de-co2-na-atmosfera-atinge-marca-simbolo-8354703).
Palco para o anúncio da superação de uma marca que já havia sido profeticamente anunciada, a montanha de Mauna Loa não deixa por menos: daqui por diante, ela será lembrada como um lugar mítico, tal qual o Monte Sinai, de onde as revelações são feitas. Mas quem pensou que o alcance da marca aconteceu em caráter de excepcionalidade, errou feio! A superação do ponto de viragem irreversível é a simples comprovação de uma lógica que vai muito além do problema do aquecimento global para se aplicar a tantos outros processos vivenciados pela vida afora: uma vez ultrapassado um determinado ponto, não há como se voltar atrás.

Pois desta vez, então, é para valer. Aliás, como tudo na vida. Mas ainda resta espaço para algum paradoxo: mesmo se no quesito "superação de limites", a semana me brindou com um recorde de permanência em um engarrafamento aqui na Roça Grande (quase 3h!), esta foi também a semana em que vi o pôr-do-sol mais bonito deste ano - pelo menos até agora.

Dos próximos pores-do-sol, contudo, nada sei. Só sei que eles serão, muito provavelmente, cada vez mais quentes.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Ponto de viragem

Sabe quando o avião acelera a tal ponto que ele não consegue mais voltar atrás? Chamado de "ponto de viragem irreversível", o ponto em que tal velocidade é alcançada proporciona ao avião uma única saída: acelerar ainda mais e decolar.

Pois é exatamente isto o que pode ocorrer com o nosso dileto planeta quando o assunto é aquecimento global. Por sinal, os prognósticos relacionados com a emissão de dióxido de carbono (CO2) são desalentadores: "Uma estação de monitoramento no topo da montanha Mauna Loa, no Havaí, deverá registrar pela primeira vez em maio um índice de 400 partes por milhão (ppm) de dióxido de carbono (CO2) no ar do Hemisfério Norte" (http://oglobo.globo.com/ciencia/a-beira-do-abismo-climatico-8204751).

O problema ao se atingir a marca de 400 ppm reside no fato de ser este "o limite em que hipoteticamente o aquecimento seria inevitável". Ou seja: "o mundo se aproxima perigosamente de um ponto na concentração de apenas um dos gases do efeito estufa na atmosfera que muitos cientistas acreditam que torna inevitável um aumento de pelo menos 2 graus Celsius na temperatura média da Terra, com graves consequências para a vida no planeta."

Para se ter uma ideia do que isto representaria em termos de consequências práticas para o planeta, basta lembrar que "segundo os cientistas, a última vez que a concentração de gases do efeito estufa na atmosfera atingiu tal nível foi na época do Plioceno, entre 3,2 milhões e 5 milhões de anos atrás, quando o clima na Terra era de 2 a 3 graus Celsius mais quente do que hoje e o nível do mar 25 metros mais alto".

O pior mesmo é que estamos passando por um período de aceleração tão contínua que em breve tornará inócua qualquer tentativa de redução do impacto do CO2 na atmosfera: "O índice está se movendo tão rápido que vai chegar aos 400 ppm até o mês que vem e a concentração não vai parar por aí. As emissões de gases-estufa estão atingindo níveis recordes e os esforços para cortá-las não estão tendo resultados".

O que esperar de um futuro pintado com cores tão sombrias? A pergunta é respondida por Ralph Keeling, "geofísico do Instituto Scripps de Oceanografia da Universidade da Califórnia em San Diego e filho de Charles David Keeling, pioneiro no estudo dos gases-estufa e seus efeitos no clima global": "Creio que, mesmo daqui a muitos anos, as pessoas que estão vivas hoje vão se lembrar de quando este índice foi ultrapassado. Ele será uma marca histórica."

Além de ficar na lembrança, há margem para esperança? Keeling acredita que, quando muito, a superação da marca de 400 ppm de dióxido de carbono poderá dar "um novo impulso nas negociações globais sobre o clima" e que a opinião pública poderá passar a exercer ainda mais pressão sobre os governantes. Isto, obviamente, vale única e exclusivamente para aqueles países cujos mandatos políticos ainda se pautam pela opinião pública, o que está bem longe de ser uma condição política universal.

O banal e absurdamente insano desta história de aquecimento é saber que precisamos de um ponto viragem irreversível para que tentemos o que já é sabidamente impossível: desacelerar.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Holoceno metafórico

Está tudo explicado, claro e nítido, preto no branco: o calor medonho que anda fazendo por aqui na Roça Grande, desde o início do mês março, não é mera coincidência:  "A temperatura média da terra está hoje mais alta do que na maior parte dos últimos 11,3 mil anos, segundo estudo publicado esta semana na revista 'Science'. " (http://oglobo.globo.com/ciencia/terra-esta-no-periodo-mais-quente-dos-ultimos-11300-anos-7785544)

Para chegar a esta conclusão, os cientistas da Universidade Harvard e da Universidade Estadual do Oregon "combinaram dados coletados em 73 regiões cobertas de gelo e de sedimentos em todo o mundo para reconstituir como era a temperatura neste período, conhecido como Holoceno, que corresponde ao fim da Era do Gelo." Bem, que a terra está se aquecendo cada mais vez, isto é fato amplamente divulgado. A novidade é que, diferentemente de estudos anteriores, que recuavam há até dois mil anos atrás, o estudo atual conseguiu recuar a 11.300 anos.

Ainda que uma das possíveis causas para as altas de temperatura ao longo destes 11,3 mil anos seja a inclinicação da Terra, todos os estudos convergem para a ideia segundo a qual, nos últimos 50 anos, o aquecimento é resultante da atividade humana.  "Isso é particularmente interessante, porque o Holoceno abrange todo o período da civilização humana", o que nos permite tecer algumas conjecturas com relação ao calor reinante e sua relação com a intervenção humana na natureza.

Daí que "o forte calor registrado em março deste ano já superou a média histórica do mês em Belo Horizonte. A temperatura nos últimos 11 dias ficou acima dos 30ºC, superando o recorde dos anos anteriores, de 29ºC." Com tantos recordes batidos, é o passado mais recente que está ganhando peso e poder explicativo.

Holocenamente falando, estamos no ápice do desgelo. Ou melhor, só alguns de nós, pois há almas que resistem bravamente ao degelo. Pior, elas vivem com a cabeça na intempéries do Holoceno, não estão nem aí para a mudança do eixo (da Terra, minha ou dela mesma) e tampouco se importam com a atividade humana circundante. Para essas almas resfriadas, um apelo da macro e da micro-história: aquecei vossos corações, sob a pena de perder o trem da história! 

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Especulação imobiliária

Nós, humanos, criamos bairros nos quais construímos imóveis, mas nos mudamos tão logo achamos que o ambiente já não nos convém mais. Prova disso é a criação do conceito de "zona sul" nas grandes metrópoles brasileiras: pouca gente sabe, mas aquela parte da cidade, considerada mais "nobre" e mais cobiçada da cidade para se morar, raramente coincide com o sul "geográfico". Isto é, a "zona sul" é muito mais um conceito social, ligado a status sócio-econômico e ao acesso a infra-estrutura, lazer e moradias de qualidade.

Já os animais e as plantas parecem fazer um pouco diferente. É que, além de estarem migrando simultaneamente para a zona norte e para a zona sul, o que eles querem mesmo é subir na vida. Literalmente!

Estudo calcado em ampla revisão de literatura sobre migração de espécies animais e botânicas, desenvolvido pela Universidade York do Reino Unido, revela que o aquecimento global tem feito as espécies migrarem da região do Equador rumo aos pólos (http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/961959-aquecimento-leva-animais-e-plantas-a-fugir-para-areas-frias.shtml).

Mas isto não é tudo: "a cada década, as espécies se mudam para altitudes 11 m maiores e rumam em direção aos polos mais 16,9 km", revela o estudo (para melhorar a compreensão, troquem "11m maiores" por "11m mais elevadas", por favor). O objetivo, ao que parece, é subir (ou descer) para regiões mais frias. "Ou seja: quanto mais uma região do globo esquentava, mais longe (ou mais alto) as espécies afetadas fugiam, já que tanto a proximidade dos polos quanto as altitudes mais elevadas ajudariam os animais e plantas a encontrar climas mais frescos."

Claro, como todo estudo, este aqui também tem lá seus limites, e a matéria é bem franca a este respeito. Por um lado, o estudo toma como referência os hábitos migratórios das espécies concentradas em regiões temperadas. Por outro, os padrões de comportamento migratório de espécies tropicais que são levadas em consideração no estudo abrangem somente as áreas da Malásia e Madagascar.

Extrapolando um pouco a matéria, podemos facilmente imaginar que esses limites têm pelo menos duas implicações: 1) ele não é capaz de dizer se comportamento semelhante é replicado nos trópicos; 2) a revisão de literatura (por mais bem intencionada que tenha sido) deixou de fora um dos maiores celeiros da biodiversidade do mundo - a Floresta Amazônica - e outros ecossistemas importantíssimos como o Cerrado e a Mata Atlântica.

Já que o estudo deixa margem para devaneios, não custa nada imaginar um destino ideal para as nossas espécies animais e vegetais fugirem do aquecimento global. A julgar pelo andar da carruagem das questões ambientais no Brasil, o destino mais fresco para elas será... o frigorífico do supermercado!

Sem mais para o momento, deixo aqui os meus votos de um bom final de semana para os meus 4 ou 5 leitores cativos, bem como para os demais leitores ocasionais.