UA-89169382-1 Crônicas de Juvenal

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

No túnel do tempo da publicidade 17

Ao comentar, nos corredores do trabalho, sobre a atraente estratégia de se contar a história da publicidade usando propagandas antigas, acabei me lembrando da série de comentários intitulados "No túnel do tempo da publicidade", que publico aqui neste blog.

Fui lá averiguar a quantas anda a saudosa série e descobri que o último comentário foi escrito no final de 2011. Foi por esta razão que resolvi espanar a poeira da sessão e do meu acervo pessoal de publicidades brasileiras de mil novecentos e bolinha (mais precisamente: 1979-2005).

Bem, sabemos que analisar relações de gênero na publicidade nacional dá pano para a manga de toda população de Pequim e adjacências. Mas um dos aspectos que mais me interpelam na história da publicidade, em geral, e da brasileira, em particular, são as sutilezas do modelo de representação do relacionamento entre homens e mulheres. Isso sem perder de vista - claro! - o papel da mulher dentro do que se convencionava representar como "modelo" de relação.

Pois a verdade é que a harmonia de um casal, senhoras e senhores, se constrói... com pano para a manga e transações gratificantes! É o que dá a entender o breve exame de duas publicidades que apresentarei a seguir, pinçadas lá do final da década de 1970.

Exemplo 1: A "gratificada"

O homem da publicidade da Bety Joias é tipicamente um homem de negócios. É a ele que o texto dirige o seguinte apelo de consumo: "dê uma joia Bety para a mulher que você ama. Ela vai gostar muito do presente e você vai fazer um ótimo negócio."

Obviamente, a pergunta incita a curiosidade do leitor: "mas que negócio?", pergunta logo de cara. A resposta concedida em seguida apaga qualquer sombra de dúvida, pois um homem de negócios que se preze prima pelo lucro acima de todas as coisas: "A começar pelos ótimos preços e pela flexibilidade do pagamento", explica o texto.

O anúncio não poupa o leitor das diversas vantagens de se fazer uma transação com a Bety (a loja, no caso): o atendimento pode ser feito em uma cobertura em Ipanema, com "sala particular para a escolha do seu presente". E parece que a Bety é boa mesmo de negócio: ela "também vai ao seu escritório ou marca uma hora especial por telefone, reservando uma vaga em estacionamento próprio".

Em suma, o convite da Bety parece irrecusável: "Faça este investimento. Ele rende os juros mais gratificantes que existem". Ficaremos por aqui na nossa análise, imaginando quem seria o mais gratificado nessa história toda...
 
 Exemplo 2: A "embrulhadinha"

A distribuição de papeis de gênero aqui é simples e clara, não deixando margem para a dúvida quanto ao grande beneficiado pelo produto. Nesta publicidade das camisas Raphy, fala-se de um homem "à espera do sucesso", ávido por fazer "bonito aos olhos das mulheres". Então, nada melhor do que as camisas Raphy, "que veste melhor que muita camisa de encomenda."

Até aqui, tudo bem. Poderíamos ter ficado por aqui mesmo, mas os publicitários quiseram mais, muito mais. É aí então que o texto prossegue rumo ao clímax: "gostosa de usar e gostosa de ser acariciada, a camisa Raphy é ideal para homens que não costumam fazer fita. Principalmente diante de uma mulher que está embrulhadinha num tecido também fabricado pela Raphy", finaliza.

Querem prova mais cabal do que a foto ao lado? Camisa cheia de qualidades essas... O desfecho - ou clímax, como preferirem - foi feito com chave de ouro. Embrulhadinha, pronta para ser usufruída em casa, no trabalho, no lazer: eis o destino da "embrulhadinha" da Raphy.

Então é isso meus amigos: no final dos anos 1970, a vida era muito mais simples: depois de feita a transação, era pegar o embrulho de levar para casa.

Mas quem disse que nós, mulheres, queremos ser simples?

terça-feira, 30 de julho de 2013

Zero gê

Interessado em viajar de carro nas próximas férias? Pois pense duas vezes quando souber o que lhe aguarda em termos de conectividade à Internet nos 5 mil km de estradas percorridas pelos técnicos da Proteste - Associação Brasileira de Defesa do Consumidor, nas regiões sudeste, nordeste e sul do país.

"O viajante pode ser pego de surpresa ao tentar, por exemplo, usar o GPS de seu telefone numa rodovia. Provavelmente, descobrirá que, na estrada, não há sinal disponível" (http://oglobo.globo.com/economia/problemas-com-3g-em-5-mil-km-de-estradas-9227760), relata a matéria. Em termos mais concretos, "nenhuma das quatro grandes operadoras de telefonia móvel — Claro, Oi, TIM e Vivo — conseguiu uma média de acesso à internet rápida superior a 51% das tentativas", conclui.

Ora, ora: e de quem é a culpa? Nos termos do diretor executivo do Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel Celular e Pessoal (SindiTelebrasil), Eduardo Levy, a culpa é da política de leilão do setor, que "sempre foi de arrecadação", e dos municípios, os quais "impõem muitas restrições à instalação de antenas, dificultando a ampliação da oferta de sinal". Ou seja, o pouco de cobertura disponível nas estradas dos país é praticamente um acidente de percurso: espécie de "puxadinho" eletrônico, "a cobertura que há nas estradas é porque o sinal de uma cidade vai além ou porque há viabilidade econômica para tal".

Bom demais! Pense só na maravilha das férias que te aguardam. Serão férias sem lero-lero no blog, sem postagem no Facebook, sem fotos "instragamizadas", sem emails (esses, é verdade, cada vez mais raros!) de urgência com pendências do trabalho... Em suma: férias, simplesmente férias, sem nenhuma superexposição em tempo real, sem as "curtidas" dos que ficaram para trás, sem o olhar de cobiça dos colegas de trabalho, sem o controle social dos que querem saber de tudo: destino, companhias, quando foi e quando volta.

Fácil, fácil antever a angústia do easy rider: com tanta limitação tecnológica, ele ou ela será obrigado(a) a retroceder no tempo e tentar lembrar como era sua vida antes disso tudo. Frustrado(a) por não lembrar de um passado relativamente recente, embicará para a primeira localidade com cobertura 3G, lamentará sua sorte nas redes sociais e clamará por justiça. Tarde demais: jamais chegará ao seu destino porque a vida, essa coisa incerta que se desenrola às margens da sua vontade própria, é concreta e boa demais para ser vivida sem o aplauso alheio.

Para este(a) pobre sofredor(a), o tratamento é simples: 30 dias de férias com Internet discada. 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Vida útil

Vida útil mais longa e acessível: eis o lema das novas notas de R$ 2 e R$ 5 que serão lançadas na próxima segunda-feira, dia 29 de julho, pelo Banco Central.

Uma das novidades nos novos modelitos são as marcas em alto-relevo para auxiliar sua identificação pelos deficientes visuais: "a nova nota de R$ 2 tem como marca tátil uma barra inclinada, enquanto a de R$ 5 possui uma barra horizontal" (http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2013/07/1317459-novas-notas-de-r-2-e-r-5-serao-lancadas-na-segunda-feira.shtml).

A outra novidade é que "as novas cédulas também passaram por tratamento para aumentar sua vida útil". Bem, por mais que acessibilidade me interesse bastante, eu fiquei me picando mesmo de curiosidade foi para conhecer o método de tratamento de cédulas que está sendo utilizado pelo Banco Central.

Quem sabe ele não me quebra o galho e me tira da fila do SUS (e do para-SUS, isto é, daquele plano de saúde privado pelo qual pagamos, mas que tem filas comparáveis ao sistema público de saúde)? Aos governos federal, estadual e municipal: fica aqui a minha dica de espionagem industrial para o fim de semana.

Saudações para quem fica, pois estou indo buscar meu tratamento nos braços de Morfeu: público, gratuito e de qualidade.

Evidências confiáveis

Esta notícia é para aqueles que, como eu, passaram mau bocados para conseguir conciliar o sono ao longo desta última semana de lua cheia.

Pesquisa experimental desenvolvida no Hospital de Psiquiatria da Universidade de Basileia (Suíça), envolvendo 33 voluntários distribuídos em 2 faixas etárias, monitorou os "padrões cerebrais monitorados durante o sono, juntamente com os movimentos dos olhos e secreções hormonais"  (http://oglobo.globo.com/ciencia/nao-consegue-dormir-bem-pode-ser-culpa-da-lua-9175074).
 
O resultado, publicado na revista Current Biology, indica mudanças sensíveis nos padrões de sono durante a lua cheia. "Os dados mostram que durante a Lua cheia, a atividade cerebral relacionada com o sono profundo caiu 30%. As pessoas também levaram cinco minutos a mais para adormecer, e dormiram 20 minutos menos do que o tempo total. Os participantes do estudo sentiram que o sono era pior quando a Lua estava cheia, e tiveram reduzidos os níveis de melatonina, hormônio conhecido como regulador dos ciclos do sono".

Para quem tem insônias recorrentes nesta fase, a pesquisa nada mais faz do que chover no molhado, já que quantificar a incidência um processo bastante familiar. Mas a insensibilidade das pessoas que moram nos grandes centros pode ser um fator de sub-notificação das oscilações no sono e humor em função da fase da lua. "Hoje, a influência da Lua é mascarada pela iluminação elétrica", relata Christian Cajochen, um dos responsáveis pela pesquisa.

 Ainda assim, "esta é a primeira evidência confiável de que o ritmo da Lua pode modular a estrutura do sono em humanos", conclui o pesquisador.

Bom, já que é assim - e de posse das minhas evidências "poucos confiáveis" - vou me recolher aos meus aposentos e procurar algumas contra-evidências que me permitam ao menos uma exceção sonífera esta noite.

Boa noite!





quinta-feira, 25 de julho de 2013

Musicagram

A compulsão por postar arquivos produzidos "ao vivo" parecer estar se expandindo e ganhando novas mídias, se assim podemos dizer.

Lembram dos drones, aquelas câmeras voadoras manipuladas por controle remoto (http://cronicasdejuvenal.blogspot.com.br/2013/06/drones.html)? Pois é, elas acabam de ganhar um reduto digital onde neófitos e especialistas trocaram figurinhas.

No seu dronestagram, "fotógrafos amadores e profissionais podem postar suas imagens geolocalizadas, divididas por conteúdo como cidades, esportes e 'coisas malucas' " (http://oglobo.globo.com/tecnologia/rede-social-reune-imagens-capturadas-por-drones-9145198).

Claro, não vale postar por postar. A coisa só tem graça, se puder ser apreciada, curtida e reverenciada por pares, já que "as fotografias podem ser curtidas, comentadas e compartilhadas".

Maravilha! Agora só falta comprar o drone. E enquanto não providencio um, vou postando esta canção antiga e despretensiosamente bela, peneirada no baú das relíquias do vovô Youtube. Sirvam-se sem moderação (mesmo porque é bem mais barato do que comprar um drone).



Fonte: http://youtu.be/7jGTNc78rXw

E boa noite para quem fica!

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O Fole

Dia de extremos, senhoras e senhores. Extremos que alteram a temperatura do corpo e que falam dos movimentos de contração e expansão característicos da vida e da morte.

De um lado, os extremos de temperatura. Segundo consta nos autos, a região metropolitana da cidade de Florianópolis (SC) conheceu a neve hoje, pela primeira vez: "Rogério Rezende, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) do Rio Grande do Sul, disse que 'não há registros do fenômeno na cidade, pela localização continental'. Segundo ele, a neve não era esperada para a capital do Estado" (http://www.hojeemdia.com.br/noticias/brasil/neva-pela-primeira-vez-na-grande-florianopolis-e-frio-fica-mais-intenso-no-sul-do-pais-1.149848).

Mesmo aqui na Roça Grande, cidade em nada afetada pela frente fria vinda do sul do país e onde "nesta segunda, por exemplo, os termômetros marcaram 30ºC", a temperatura há também de conhecer seus revezes: "Os mineiros vão sentir a diferença porque (...) para esta quarta os registros não devem passar de 20ºC".(http://www.hojeemdia.com.br/minas/frio-deve-aumentar-e-previs-o-e-de-chuva-para-esta-quarta-feira-em-minas-1.149764).

Em meio a tantos extremos de temperatura, tristeza maior foi receber a notícia da morte do sanfoneiro Dominguinhos, aos 72 anos de idade. "Depois de seis anos de luta contra um câncer de pulmão, morreu nessa terça-feira, às 18h, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, o sanfoneiro Dominguinhos, um dos maiores músicos do Brasil", por "complicações infecciosas e cardíacas" (http://oglobo.globo.com/cultura/morre-cantor-compositor-dominguinhos-aos-72-anos-9153537).


Se, como dizem os anatomistas, o diafragma nada mais é do que um grande fole que dá vida ao pulmão, então foram dois os instrumentos fatalmente silenciados pelo grande mestre da sanfona no dia de hoje. Dominguinhos, esse grande conhecedor das alternâncias do sopro divino, não há de sentir, portanto, nem o frio cortante do Sul nem o calor seco das Gerais.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Eu quantificado

Baixe um aplicativo e saiba mais sobre você mesmo.

Longe de ser uma sugestão pessoal desta que vos escreve, a nova palavra de ordem "faz parte de uma tendência chamada de quantified self (algo como 'eu quantificado'), cujos adeptos anotam não só dados gerados automaticamente, mas também humor, disposição e capacidade de concentração momentâneos a fim de, dizem, se conhecer melhor" (http://www1.folha.uol.com.br/tec/2013/07/1313842-dispositivos-ajudam-quem-quer-descobrir-mais-sobre-seus-habitos-e-melhorar-a-vida.shtml).

Na prática, a tendência é bem mais simples do que parece. Basta colocar "no pulso um dispositivo pequeno, relativamente discreto"; ao final do dia, "você pega o smartphone e, em um gráfico, vê quantos passos deu e quantas calorias gastou". Simples assim.

Entusiastas dos dispositivos tecnológicos como Melanie Swan, pesquisadora que publicou recentemente um artigo sobre quantified self no jornal Big Data, acreditam que sua propagação generalizada pode favorecer a própria pesquisa científica: "Somente com dados em grande escala e agregados poderemos ver verdadeiros progressos na medicina preventiva, por exemplo."

Outros pesquisadores, como o brasileiro Dárlinton Barbosa Feres Carvalho, autor de tese de doutoramento sobre o tema, acreditam que o grande ganho dos aplicativos é o aumento do controle sobre seus próprios hábitos: "Percebi que precisava me organizar melhor. Agora, posso saber se consigo mudar ou criar um hábito para ficar melhor", relata ao Jornal Folha de S. Paulo. Para se ter uma ideia da amplitude da febre, "uma pesquisa publicada pelo Pew Research em janeiro diz que 69% dos americanos acompanham regularmente ao menos um indicador de saúde, dos quais 30% usam um eletrônico para essa tarefa."

Porém, se tanta sede de monitoramento e autocontrole acabar criando um self ansioso, propenso à insônia e às oscilações dos indicadores de saúde, fica aqui minha sugestão: desquantifique o seu self, desligando todos os aplicativos e colocando-os para dormir o sono dos justos. Com tanto reforço do eu, não vai ter inconsciente que chegue nem para sonhar com a contagem dos carneirinhos sobre a cerca.

Aliás, sugestão feita, sugestão acatada. Hora de dormir o sono dos justos. Boa noite para quem fica.