UA-89169382-1 Crônicas de Juvenal: sol
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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Obstinação solar

Se você não estava em Londres na noite de ontem, então acabou perdendo a melhor oportunidade da sua vida de ficar pobre comprando um única de Picasso em papel.

"A casa de leilões Sotheby's, em Londres, vendeu o quadro 'Composition au Minotaure', de Pablo Picasso, pelo valor de 10,4 milhões de libras (cerca de R$40,8 milhões), o preço mais alto já alcançado por uma obra em papel do artista, conforme informa o jornal 'El País' " (http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/02/1408317-obra-de-picasso-em-papel-atinge-recorde-em-leilao.shtml).

Se, por um lado, você perdeu a oportunidade de ficar pobre comprando um única obra em papel de Picasso, por outro, manteve-se também ao abrigo de melar lindo Picasso porque resolveu levá-lo consigo debaixo das primeiras chuvas sinceras deste ano de 2014.

Pior ainda: você, que ficou sem o Picasso e sem as chuvas, tem agora que rezar por vários milagres: ver cair as chuvas neste verão (raras por essas bandas), acumular riquezas em libras e melar seu Picasso recém-adquirido.

Se bem quando o milagre é muito, o santo desconfia. Melhor então é permanecer pobre mesmo, deixando as obras raras para a posteridade, já que o sol, este, é o único que parece brilhar com convicção, a despeito de todas as rezas em contrário.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Ciclo 24

Calma, calma, o ano já está acabando.

Esta notícia é justamente para você, que achou o ano de 2013 dos mais turbulentos e está fechando o ciclo com um raminho de arruda atrás da orelha e gritando "saravá" da janela. É que os jornais online do dia trouxeram uma boa noticia: você não está só no universo.  

Para a alegria geral do nosso sistema solar - e mais além - o Sol também está concluindo, neste mês de dezembro, o ciclo solar 24 -  período de atividades que dura aproximadamente onze anos e durante o qual ocorre a inversão total do campo magnético do astro rei (http://oglobo.globo.com/ciencia/sol-vira-de-cabeca-para-baixo-intensifica-atividade-eletrica-11180098).

Em termos bestamente simples, significa que o sol ficou de cabeça para baixo - ou de pernas para o ar, como queira - exatamente como a sua vida ao longo deste ano. Não sou eu quem diz, é a NASA: "No período em que ocorrem as inversões magnéticas, as atividades solares se intensificam, o que favorece a ocorrência de erupções e manchas na estrela, além de ejeções de massa coronal - grandes erupções de gás ionizado a alta temperatura". Com isso, "os raios cósmicos também são afetados, o que favorece a ocorrência de explosões e eventos violentos na nossa galáxia". Ou seja, estamos todos no mesmo barco.

Agora que você percebeu que não foi o único a vivenciar revezes existenciais e achaques explosivos , alegre-se: 2014 está batendo à porta. Ciclo novo, com as bênçãos do Sol. Saravá!



quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Superlativos

Em tempos de mudança climática, a natureza anda cheia de superlativos. De um lado, cientistas conseguem recuperar a marca da menor temperatura registrada por satélite no nosso planeta: "O lugar mais frio da Terra atingiu a amarga marca de - 93.2 graus Celsius", relata notícia publicada no jornal Hoje em Dia online (http://oglobo.globo.com/ciencia/o-lugar-mais-frio-da-terra-11023131).

O interessante é que a descoberta foi retroativa, já que a "temperatura foi medida por satélite na Antártica, em agosto de 2010, de acordo com uma pesquisa apresentada durante o encontro da União Geofísica Americana, em São Francisco".

De outro lado, a Coordenadoria Municipal de Defesa Civil alerta que, "nos próximos quatro dias, pode chover a metade do esperado para todo o mês de dezembro em Belo Horizonte". Isto equivale a dizer que corremos o risco de ter cerca de 150mm de precipitação em quatro dias, ao passo que a média histórica mensal é de 319mm (http://www.hojeemdia.com.br/minas/nos-proximos-4-dias-pode-chover-metade-do-esperado-para-todo-o-mes-em-bh-1.200346).

Em meio a tantos extremos e recordes batidos, algumas explicações surgem cá e acolá. Se aqui, na Roça Grande, "a brusca mudança climática é decorrente da chegada de uma uma frente fria em Minas Gerais", lá embaixo, na Antártica, "geralmente, estas temperaturas superfrias ocorrem quando bolsões de ar ficam aprisionados na superfície da terra. Se o céu fica claro por alguns dias, o solo irradia o calor restante para o espaço, criando uma camada de ar super refrigerado acima da neve."


Não se sabe ao certo, mas se for mesmo verdade que aqueles dias de céu claro na Antártida eventualmente ocasionam chuva forte ao cerrado, então a solução para quem quer ver sol durante nossos dias quentes e chuvosos está fácil: basta pegar o primeiro voo para o polo sul.

Simples assim!

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Sol e altitude

Acordar às 3h da manhã para ver o sol nascer nos Andes foi uma experiência e tanto. Primeiro, porque me permitiu desenterrar a parafernália de inverno que não usava desde que voltei do Canadá. Segundo, porque, apesar do sol nascer para todo mundo neste planeta, lá em cima ele nasce diferente. Terceiro, porque o sol foi visto nascendo lá perto dos gêiseres do campo geotérmico El Tatio. "El Tatio", o avô que chora. A descida do grande avô foi uma sucessão de belezas de fazer chorar qualquer alma deste mundo. Minha reverência ao grande avô e a este belo povo Machuca, que me ofereceu uma deliciosa "empanada de queso", um chá cura-altitude, um belo par de luvas e uma lhaminha de souvenir.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Côncavo

Basta entrar o mês de setembro para o sol rachar e a umidade relativa do ar na Roça Grande despencar sem nenhuma pretensão de elegância. Para mim, está bom do jeito que está, pois estou treinando para o deserto do Atacama. Mas para quem teme pelas próprias vias respiratórias e não pretende tão cedo fincar o pé no cactus, isso aqui é inferno na Terra: quente e bem seco.

Mas como tudo nessa vida é questão de perspectiva - ou quase tudo - nada como se solidarizar com outros seres humanos em situação igual ou pior. Porque solidariedade é que nem casamento: na saúde ou na doença, no amor ou no calor. Pois bem: senti um ímpeto maluco de me solidarizar com meus amigos londrinos, principalmente aqueles que vivem - ou estacionam - próximo a um edifício que localizado no centro comercial de Londres e que é conhecido pela singela alcunha de Walkie Talkie.

Aparentemente, o singelo edifício não passa de um arranha-céus como tantos outros. Notícia publicada hoje no jornal Hoje em Dia online explica que o "20 Fenchurch Street é um conjunto de arranha-céus com 37 andares e cerca de 200 metros, previsto para ser concluído no próximo ano". Só que ele possui uma peculiaridade: " a luz solar bate nos vidros espelhados do edifício que tem formato côncavo e, com isso, o reflexo atinge os carros estacionados nas ruas adjacentes" (http://oglobo.globo.com/imoveis/predio-espelhado-em-londres-acusado-de-derreter-carros-9796645).


O resultado é que antes de mesmo de ser concluído, o edifício está sendo acusado de derreter e empenar painéis de carros e retrovisores com seu poder de refração, potencializado pelo próprio formato côncavo do edifício. E segundo uma reportagem do Daily Mail, não só painéis de carros estão sendo danificados: "pedestres também reclamam do brilho excessivo por causa do reflexo do sol na fachada de vidros".


Para pedestres e motoristas das imediações do 20 Fenchurch Street, fica aqui registrada minha total solidariedade, pois bem sabemos que sofrer com o sol a pino não fácil. Seja no côncavo do edifício, seja no Recôncavo baiano, não são muitas as saídas: ou bem a lenta espera pela gradativa mudança das estações; ou bem uma passagem comprada para o deserto mais próximo - pois, como eu disse, tudo (ou quase tudo) nessa vida é questão de perspectiva.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Alinhamentos

Esses tempos de transição entre algo e outra coisa - do contrário, não seria transição! - têm levado muita gente a olhar eventos corriqueiros sob as lentes de aumento da tragédia. Assim foi recebido o dia de calor, hoje, aqui na Roça Grande: um sinal claro do final dos tempos!
Se bem que esse tom de tragédia esteve mais na fala das pessoas ao longo do dia, do que na mídia impressa propriamente dita: "nesta terça-feira (18), o termômetro chegou aos 32ºC em BH e a umidade relativa do ar ficou em 31%, considerada baixa para esta época do ano" (http://www.hojeemdia.com.br/minas/previs-o-de-calor-e-chuva-nos-proximos-dias-em-bh-e-regi-o-metropolitana-1.69849).

Sem as frentes frias, tão comuns para esta época do ano, o clima geral acabou sendo mesmo de consternação. E muito embora os termômetros da capital já tenham marcarado temperaturas bem mais elevadas do que essa, a impressão que fica é a de que a sensação térmica era compatível com a de um dia típico do deserto do Saara.

"Por que será?", pergunto eu. "Simples", respondo para mim mesma. A razão só pode estar no tão propalado alinhamento cósmico entre nosso sol, o planeta Terra e o sol central, que fica no centro da galáxia. Não tem outra alternativa: só o alinhamento com dois sóis explica o calor absurdo que fez hoje!

Obviamente, estou ironizando mais o calor do que o alinhamento, seja ele com que sol for. Aliás, para combinar com a temática do momento, até fui ontem fazer um realinhamento postural - quadríceps, pélvis, ombros, maxilar e por aí vai. Se a Terra derrreter no meio dou desses dois sóis, pelo menos eu me vou desse mundo alinhada que só.

Isto é o que eu chamo de consolo besta!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O lado iluminado da força

Não sei como você está começando o seu ano, mas o meu eu começo acendendo uma vela para as boas notícias, mesmo quando elas vêm travestida de eventos funestos. Quer um exemplo?

O falecimento do esgrimista Bob Anderson no último domingo poderia ser visto pelos fãs da série Guerra nas Estrelas como uma tragédia sem precedentes (http://www1.folha.uol.com.br/esporte/1028913-morre-esgrimista-olimpico-que-era-duble-de-darth-vader.shtml).

Para situar os leigos e não-iniciados no clássico (classe na qual me incluo, diga-se de passagem), vale lembrar que Anderson atuou como dublê de Darth Vader "nas cenas de luta dos episódios 'Império Contra-ataca' e o 'Retorno de Jedi' ".

É claro que a morte de alguém com um currículo invejável como o do britânico Anderson deixa uma lacuna irreparável no mundo ficcional. Além de ex-competidor olímpico de esgrima, Anderson foi um cultuado coreógrafo de lutas com espada em Hollywood, tendo participado "da equipe de produção dos filmes 'A Lenda do Zorro' (2005) e da triologia 'Senhor dos Anéis' ". E, para coroar sua existência de glória, ele teve tempo de integrar, ainda no ano passado, "a equipe de produção do filme 'O Hobbit' ", cuja estreia está prevista para 2012. Nada mal para quem partiu desta para melhor aos 89 anos de idade.

Outra coisa: se você entrou em 2012 assombrado com a perspectiva de um fim de mundo próximo, pode ir tirando seu cavalinho da chuva. Notícia publicada na Folha Ciência lembra aquilo que você estudou provavelmente na 5a série, mas acabou esquecendo: "Daqui a 1 bilhão de anos, nosso planeta estará fadado à morte certa, com um futuro de temperaturas escaldantes insustentáveis para a manutenção da vida" (http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/1028800-vem-ai-o-fim-do-mundo-mas-nao-sera-neste-ano.shtml).

Tudo isto porque o nosso sol querido - aquele que a gente não vê há muito tempo por causa das chuvas torrenciais que andam caindo aqui na Roça Grande - chegará ao ápice do seu processo de amadurecimento, que culmina da expansão do seu tamanho "em torno de 200 vezes, o suficiente para 'engolir' Mercúrio, Vênus e, muito provavelmente, a Terra".

Assim vamos terminando o dia com duas boas notícias travestidas de tragédia. No primeiro caso, fica o consolo de que na falta de alguém com tamanho talento e habilidade de Bob Anderson, o lado obscuro da força nunca mais será o mesmo. E no segundo caso, a boa notícia é que você tem um bilhão de anos para morrer, reencarnar - quem sabe na condição de esgrimista e campeão olímpico? - e morrer de novo, se for o caso. Pois é nos ciclos de vida-morte-renascimento que reside o lado iluminado da força.