UA-89169382-1 Crônicas de Juvenal

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Outros olhos

A habilidade de ver o mundo com outros olhos, a cada dia, não é para muitos. Mas há também quem deseje veementemente voltar a ver o mundo com os olhos de sempre.

Eis o caso da carioca Patrícia Rodrigues, que acaba de ser submetida a uma cirurgia de correção no Banco de Olhos de Sorocaba, "depois de perder 70% da visão por causa de uma cirurgia para trocar a cor dos olhos feita no Panamá" (http://www.hojeemdia.com.br/noticias/escritora-volta-a-enxergar-apos-troca-da-cor-dos-olhos-1.147731).

Na verdade, a vontade de ver a vida com outros olhos veio na primeira cirurgia, em 2009, quando a paciente quis a mudar a cor original dos seus olhos de castanho escuro para verde. Malsucedida, a cirurgia acabou naufragando na própria perda da visão: "No início de 2013, Patrícia começou a perder a acuidade visual. Em algumas semanas, a questão agravou-se ao ponto de a autora não conseguir mais enxergar o chão ou ver o prato de comida. Patrícia afirma que passou a depender de ajuda para as tarefas mais simples".

Claro que toda mudança comporta riscos, mas não deve ter sido lá muito agradável trocar as cores do mundo pelo verde da retina - principalmente quando ele acaba revelando o lado obscuro da vida. "A clínica do Panamá é uma das poucas do continente que realizam cirurgias para mudança na cor dos olhos, mas o método não é considerado seguro. No Brasil, o procedimento está em fase experimental e ainda não foi aprovado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM)".

Como diria sabiamente Marina Lima: "Por outros olhos e armadilhas".

  
Fonte: http://youtu.be/dgYVjofcWrs

Boa noite para quem fica!



terça-feira, 16 de julho de 2013

Caminhada

Frustrante demais essa vida de astronauta!

Menos de uma hora após sua partida para uma caminhada em torno da Estação Espacial Internacional, o astronauta italiano Luca Parmitano acabou vendo sua caminhada ir por água abaixo - ou água adentro, segundo consta nos autos (http://oglobo.globo.com/ciencia/vazamento-em-roupa-de-astronauta-interrompe-caminhada-espacial-9057513).

Prevista para durar cerca de seis horas, a caminhada teve de ser precocemente interrompida, já que o astronauta "informou que havia um vazamento de água por trás de sua cabeça flutuando dentro de seu capacete". Difícil manter a cabeça fria, mesmo com a presença água: "Uma estimativa inicial calcula que cerca de meio litro de água vazou possivelmente da bolsa de hidratação acoplada na roupa".

E o que é pior: "Parmitano disse que a água não tinha gosto do líquido que usam para beber".

Sem dúvida, uma péssima constatação. É a mesma coisa que esperar pelo passeio de domingo com a melhor roupa e ter que voltar para trás por causa da chuva, só que com uma grande desvantagem: quando chove, pelo menos a gente sabe de onde a água vem.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Analogias digitais

Quem não se lembra daquela expressão (mais velha do que andar para a frente) que diz que "fulano mata a cobra e mostra o pau"? Pois é: foi inevitável lembrar dela após ler esta notícia publicada hoje no jornal Folha de S. Paulo online (http://classificados.folha.uol.com.br/negocios/2013/07/1311254-restaurante-mostra-ao-cliente-quem-pegou-o-peixe.shtml).

Não que se mate a cobra. Também não há pau sendo mostrado. Mas, na pior das hipóteses, uma analogia com a famosa expressão é possível, já que mostrar detalhes dos bastidores do abate de animais - neste caso especifico, de peixes - acabou virando moda nas Terras do Tio Sam. Ou, pelo menos, está em vias de.

"Rob Ruiz, do Harney Sushi, desenvolveu um sistema pela qual o cliente pode ver onde o peixe que ele está comendo foi pescado, quanto dessa espécie existe no mundo e até mesmo o rosto dos pescadores responsáveis pela refeição".

A razão para tanto? Matar a cobra e mostrar o pau, isto é: provar que o peixe oferecido no Harney Sushi, um restaurante japonês localizado na cidade de San Diego, não usa de artifícios comumente utilizados em restaurante do gênero, a saber: "injetar monóxido de carbono no alimento para deixa-lo vermelho mesmo depois de vencida a validade"; ou, tão ruim quanto, "processar restos de peixe e vendê-los como uma peça nobre".

O método de identificação da procedência do peixe funciona com base em um dispositivo chamado QR Code. "O QR Code é um quadrado que se assemelha a um código de barras. Quando aponta-se a câmera do smartphone para um deles, o usuário é direcionado a uma página". Ao escanear este código, o cliente é imediatamente remetido a uma página, onde ele pode acessar a foto de seu pescador de preferência.

Mas, como toda analogia tem limites, vale listar aqui alguns deles:

1) a ideia funciona bem com peixes, mas corre o risco de ser traumatizante com vacas: já imaginou como se daria a visualização dos detalhes sórdidos de cada um dos funcionários do matadouro onde o chifrudo foi abatido?

2) o dispositivo QR Code exige banda larga e a presença de um celular smartphone, sendo, portanto, de pouco uso na Somália (aliás, tem alguém realmente interessado em conhecer a procedência de qualquer alimento na Somália?);

3) o visual do pescador pode passar a contar na escolha do peixe, variável que escapa completamente ao controle do dono do restaurante;

4) finalmente, há que se aventar a possibilidade de o experimento descambar para um show de exibicionismo: vai que o profissional empolga e engata uma de suas famosas conversas de pescador?

Este último fato justificaria, por si só, uma outra analogia: o encontro da fome com a vontade de comer. Mas qual seria o problema, no final das contas? Não é de analogia em analogia que a galinha enche o papo?



quinta-feira, 11 de julho de 2013

Contraste


Hoje vou ser breve. Prometo!

O que pode haver em comum entre um projeto de veículo-robô que a NASA enviará a Marte em 2020 (http://oglobo.globo.com/ciencia/foco-nos-sinais-de-vida-em-marte-8990847) e o florescimento inesperado da raríssima flor-cadáver pela terceira vez em cinco anos no Jardim Botânico Nacional da Bélgica, em Bruxelas (http://www.hojeemdia.com.br/noticias/bizarro/flor-cadaver-a-maior-do-mundo-floresce-em-bruxelas-1.144370)?

Ora, ora: o que mais poderia ser senão a vida florescendo nos lugares mais insuspeitos?

No caso da expedição ao rochoso e aparentemente estéril planeta Marte, a NASA sabe muito bem que, "dadas as recentes descobertas do Curiosity, vida passada em Marte parece possível". No caso da flor-cadáver, espécime "que floresce apenas três ou quatro vezes ao longo de seus 40 anos de vida", suas características de morte são apenas um subterfúgio para o florescimento da vida: afinal, seu "forte cheiro de carne podre" tem a única finalidade de "atrair insetos polinizadores, como besouros, garantindo a sua reprodução".

Na poeira das rochas inóspitas ou no cheiro de carne em decomposição, pouco importa: vida é vida. E quem não concorda que fique parado aí, exatamente onde está, vendo a vida... passar.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Uníssono

O achado de pesquisa está bem longe de surpreender, mas não deixa de ter lá o seu atrativo: "Pesquisadores suecos concluíram que cantores de corais não apenas sincronizam suas vozes, mas também os batimentos cardíacos", revela notícia da BBC replicada hoje pelo jornal O Globo online (http://oglobo.globo.com/ciencia/cantores-de-corais-tem-sincronia-na-voz-no-coracao-revela-estudo-8974845).

A bem da verdade, qualquer iogue meia-boca dá fé do "achado científico": "Os cientistas explicam que as pulsações aceleram ou ficam mais devagar no mesmo ritmo porque, para cantar, o coral precisa ter o mesmo tempo de respiração".

Isto talvez explique a repentina afinação de ideias que o nosso distinto Senado experimentou no dia de hoje: a julgar pela decisão tomada no calor das emoções com os últimos casos de espionagem dos EUA, a sincronia é de corpo, mente e espírito. "A Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou nesta terça-feira, em votação simbólica, uma moção de apoio para que a presidente Dilma Rousseff conceda asilo político a Edward Snowden".

Infelizmente, não é a respiração nem a música, mas nossos brios nacionalistas que justificam tamanha afinação: se fosse para votar o aumento do salário dos professores, tenho certeza de que a maioria sairia do compasso. O raciocínio é simples e certamente desconcertaria os pesquisadores suecos: para um Senado como o nosso, que vive dançando conforme a música, sincronia é quase um acidente de percurso.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Es-pi-o-na-gem!

Senhoras e senhores, bem-vindos à mais nova reedição da Guerra Fria. Sim, podem passar, é por aqui mesmo. À direita, temos um guarda-volumes. Queiram deixar aí seus pertences mais valiosos: carteira, joias, reloginho do Mickey (com ou sem grife), seu diploma, seu orgulho e, claro, sua dignidade. Aqui, no País das Mil e Uma Plásticas, não carece levar tanta coisa na bolsa, mesmo porque a chance de ficar sem bolsa é grande.

Queiram passar mais adiante, por favor, no detector de espiões. Se apitar, é porque as empresas de telecomunicações sediadas no Brasil permitiram. Isso mesmo: eis o "bafão" do dia, da semana, quiçá do mês: segundo reportagem publicada ontem no jornal O Globo online, a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA) e Agência Central de Inteligência (CIA) do mesmo país contaram com a cooperação de empresas de telecomunicações do Brasil para espionarem milhões de telefonemas e correspondências eletrônicas trocados por brasileiros e por pessoas em trânsito no Brasil (http://oglobo.globo.com/mundo/nsa-cia-mantiveram-em-brasilia-equipe-para-coleta-de-dados-filtrados-de-satelite-8949723).

Tiro para lá de mal dado, este descalabro de monitoramento só nos fez ter mais apreço pelo seu responsável, o ex-agente da CIA e persona non grata Edward Snowden. Além de ser o dedo-duro da vez (revertendo o feitiço contra seu feiticeiro), Snowden conseguiu algo raro: fazer com que nós, brasileiros, olhemos a vizinha Venezuela com olhinhos de cobiça: afinal, por que eles e não nós, brasileiros, oferecemos asilo político ao mais novo herói mundial? A pergunta, acreditem, já começou a ser encampada por alguns dos nossos mais caros senadores (http://oglobo.globo.com/mundo/senadores-defendem-que-brasil-conceda-asilo-edward-snowden-8962251).

O mais engraçado é imaginar o trabalhão que terão os EUA para monitorar todos aqueles que comentarem suas ações de espionagem daqui por diante: se já eram milhões de emails e telefonemas, imagine agora, que a artimanha caiu na boca do povo?

A notícia é tão lastimável que, do ponto de vista prática, só nos resta lamentar o fato de continuarmos sendo quintal de superpotência e, colateralmente, tentar levar alguma vantagem nesta história. No caso de um blog como este que vocês lêem, que tem tentado funcionar muito capengamente durante as horas diurnas, ainda há alguma esperança de se capitalizar com a atenção alcançada. Assim sendo, escreverei a palavra "espionagem" repetidamente nos meus comentários diários, de preferência com letras garrafais, para que algum motor de busca passeie pelo meu blog. Pelo menos, o esforço de vigilância vai ser servir para alimentar as estatísticas de visita do blog e, com isto, aumentar as chances de converter a indiscrição alheia em ganhos com publicidade visualizada.

Enfim... hora de dormir. Motores de busca da CIA são, seguramente, mais notívagos do que eu.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Mãozinha


Ossos do ofício, diriam alguns. Recordação macabra, diriam outros.

Fato inegável: notícia publicada hoje no jornal Hoje em Dia online celebra um reencontro entre o médico norte-americano, Sam Axelrad, originário da cidade de Houston (EUA), e o ex-soldado vietcongue Nguyen Quang Hung, habitante da cidade An Khe (Vietnã)(http://www.hojeemdia.com.br/noticias/bizarro/medico-americano-devolve-ossos-de-braco-a-soldado-vietnamita-1.141771).

Mais do que um mero encontro entre médico e paciente, o fato em questão comporta, no mínimo, um alto teor de originalidade: é que o médico guardou, intactos, os ossos de um braço que havia sido amputado pelo médico em 1966, em decorrência de uma gangrena causada por um tiro.


Mais surpreendente ainda é o fato de que, passado tantos anos, aqueles mesmos ossos ainda serão de grande utilidade para seu proprietário, "que agora tem a intenção de utilizá-lo para exigir uma aposentadoria de veterano de guerra". Neste sentido, é correto afirmar que o caso também comporta um elevado nível de literalidade: o doutor Axelrad resolveu então dar uma mãozinha, ou melhor, a mãozinha para Hung provar ao Estado "que foi ferido durante a guerra e solicitar uma aposentadoria do Estado" (sic! sic! sic!).

No final das contas, o caso leva a necessidade de comprovação às últimas consequências: "Todos os meus arquivos militares se perderam, de modo que não fui considerado um inválido de guerra. Tenho a esperança de que este osso me permita obter o respaldo oficial para os veteranos de guerra", afirmou o ex-combatente.

Sem dúvida, um show de verificacionismo capaz de deixar qualquer positivista lógico de queixo caído!