Lembra aquela notícia inofensiva de ontem, que falava de uma vaca que deu à luz à quadrigêmeos? Pois eu hoje descobri que nem só de histórias pacíficas vivem as vacas.
Intitulada "Igreja é condenada a pagar indenização por morte de vaca", matéria veiculada na Folha Online narra as augruras do agricultor Ivandro Rodrigues Souza, no interior de Santa Catarina (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/911970-igreja-e-condenada-a-pagar-indenizacao-por-morte-de-vaca-em-sc.shtml). Souza, que morava próximo à Igreja do Céu do Cruzeiro Iluminado, do movimento Santo Daime, acredita que a igreja tenha sido responsável pela morte de sua vaca. "O agricultor disse que, na ocasião, fiéis atiraram fogos de artifício em direção à sua casa e que um de seus animais, uma vaca --que estava prenhe-- assustou-se e quebrou uma porteira do curral. O animal, cujo leite era destinado a consumo familiar e venda, abortou dois dias depois devido ao susto, morrendo mesmo depois de receber tratamento". Laudos veterinários confirmaram ausência de causa infecciosa no aborto, o que pode levar a crer que o animal tenha abortado de susto.
Eu, obviamente, como qualquer leitor com um mínimo de sensibilidade, me compadeci da sorte de ambos: agricultor e vaca. Claro! Quem não se sensibilizaria com a sorte de alguém que perde, a um só tempo, uma fonte de renda e de alimento familiar?
Mas a pressa é inimiga da perfeição e das reflexões mais críticas. Sem subtrair ao agricultor seu quinhão de razões para ficar decepcionado (alimento e sustento são coisas sérias), penso que algumas questões adicionais merecem ser colocadas:
1) O fato de ser a igreja em questão um templo de consumo do Santo Daime não teria enviezado a decisão?
2) Esse mesmo tipo de decisão judicial já foi proferida contra templos de outras religiões, como as igrejas católicas e evangélicas? É, porque fogos de artifício costumam ser muito amigos das quermesses de igreja...
3) A igreja em questão tinha conhecimento do potencial de dano causado pelos fogos? Já tinha sido advertida a respeito? Barulhos como esse eram frequentes? Sim? Não? Em caso positivo, qual a frequência?
Bem, quaisquer que sejam os atenuantes ou agravantes da questão, fato é que a Justiça acabou decidindo por uma indenização da ordem de R$ 6.800. "Procurada, Gianna Schmidt Siqueira, advogada da igreja, não quis comentar o assunto", decisão esta que só nos deixa o dissabor de não conhecer outro lado da história.
Seja por omissão de uma das fontes, seja pela possível empatia do repórter com a causa do agricultor, temos que o fato noticioso não passou dessa condição. É que para virar reportagem, ambos são imprescindìveis: fontes eloquentes e repórteres curiosos!
Quem sabe de uma próxima?
A autora criou esse blog para divagar sobre o que lê diariamente nos jornais, com foco principalmente (mas não exclusivamente) na cobertura diária de ciência. Suas principais armas são a ironia de inspiração machadiana e um computador bacaninha (ela tirou o escorpião do bolso e comprou um de verdade). Ao citar alguma passagem, por favor, dê créditos para a autora: até para as grandes bobagens o direito autoral é inalienável.
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